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Nº2274 - Quinta-feira, 2010.FEV.4


 

4 Écrans

 

 

 

Tudo pode

dar Certo

de Woody Allen

 

 

Com Boris, interpretado por Larry David,

Woody Allen copia-se a si próprio

O cineasta de origem judaica Woody Allen, ex-habitante de Nova Iorque e hoje estabelecido em Paris por razões de ordem estratégica, fez um filme cujo personagem principal é Boris, habitante de Nova Iorque, com grandes semelhanças com inúmeros que o antecederam e que muitas vezes o realizador interpretou.

Desde logo, pela necessidade obsessiva de expor as suas ideias, com frequência muito originais, expondo-se a si próprio aos olhos do espectador, nas suas convicções e sobretudo nas suas fraquezas e conflitos, como num longo processo de terapia, de facto vivido na sua vida pessoal.

Desta vez, passou a pasta ao actor Larry David cujas intervenções, para além do grupo de amigos com que se encontra em mesas de cafés, são também dirigidas ao público, olhos na câmara, que é como quem diz, olhando-nos directamente.

Se em filmes anteriores em que também actua se tem mostrado um falador apaixonante, mesmo quando a voz denota o cansaço natural num homem de 74 anos, este Boris é absolutamente incansável e a sua voz soa com um vigor que acentua a convicção posta em tudo o que diz.

Como em tudo nesta vida, os amigos passam da atenção ao fastio e acabam afastando-se deste orador que os massacra, tentando impingir-lhe conceitos que justifica de modo incontestável, mas em que não estão grande mente interessados, como sucederia ao espectador se…

…se não aparecesse o elemento novo que é a jovem Melody, interpretada pela actriz Evan Rachel Wood, em fuga de casa dos pais, no Mississipi, fazendo-se acolher em casa de Boris, a quem convence contando-lhe as suas lamentações.

A partir daqui e como em muitos filmes escritos e realizados por Woody Allen, assistimos à lenta mas tenaz aproximação entre a garota e o homem maduro, um processo de sedução cujo fim se adivinha, desde logo, como situação obsessivamente contada ao longo da sua obra, sobretudo mais recente.

E como para o cinema resultar, tem de haver conflito, ele surgirá a seu tempo, perturbando o espectador e levando-o, no processo de identificação habitual, a torcer para que o amor prevaleça, mesmo que isso nem sempre seja possível.

Hábil como sempre, Woody conduz o filme de uma forma tal que tudo se comporá à sua maneira, o que ele aproveita para rematar com a conclusão final da vida ser feita de contradições e destituída da excessiva importância que todos lhe atribuímos.

Uma história bem escrita pelo realizador e por ele melhor transportada para filme, apoiada numa segura direcção de actores, emoldurada pela música de Jazz ou Blues que Woody Allen ama e também interpreta, e percorrido por ricos diálogos que farão as delícias dos seus cultores e cansarão uns tantos que o não são.

Para TUDO PODE DAR CERTO, o mais recente filme de Woody Allen, com Larry David e Evan Rachel Wood, 4 écrans, filme decididamente a ver.

Falco Fernandes

(Grande Écran 609, de 4 de Fevereiro de 2010)


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