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Nº2271 - Quinta-feira, 2010.JAN.28


 

3 Écrans

 

 

 

 

Invictus

de Clint Eastwood

 

 

Nelson Mandela aka Morgan Freeman

vs. François Pienaar aka Matt Damon,

 político e o desportista num acordo invulgar

A libertação de um país da vergonha que foi o apartheid, tal como qualquer outra forma de colonização de povos ou etnias, é objecto do mais recente filme de Clint Eastwood, durante muito tempo menosprezado como actor, a quem a Europa fez justiça, e de há uns anos a esta parte, consolidado como um excelente realizador que é.

Neste filme que parte do livro ‘Playing the Enemy’, do britânico John Carlin, adaptado ao cinema por Anthony Peckham, o realizador de 80 anos não actua, escolhendo para cabeças de cartaz os seus colegas Morgan Freeman, no papel de Mandela, e Matt Damon, no de François Pienaar.

Num papel secundário, aparece Scott Eastwood que já participara em GRAN TORINO e FLAGS OF OUR FATHERS – AS BANDEIRAS DOS NOSSOS PAIS, e Kyle Eastwood, co-autor da Banda Sonora Original, como já fora também em MILLION DOLLAR BABY – SONHOS DESFEITOS e MYSTIC RIVER.

Começando por evocar a libertação do activista da democracia na África do Sul, até então considerado um terrorista pelos brancos, o filme apresenta-nos um país em constante sobressalto, à beira da guerra civil, num tempo em que brancos e negros ainda vivem num equilíbrio precário, espartilhados pelo Appartheid.

Ao que tudo indicava, a África do Sul parecia incapaz de se deixar governar por um Presidente negro, probabilidade que se desenhava claramente no futuro, quando a perspectiva era a de Mandela ganhar as eleições, levando os jornais a publicar caxas como “Parece capaz de ganhar, mas não conseguirá governar”.

E Nelson Mandela ganhou, metendo ombros ao desafio de pacificar o seu país, demolir as barreiras entre raças, escolhendo uma via que mobilizaria todos para essa tarefa dantesca, sob os lemas da reconciliação e do perdão.

A resposta escolhida pelo recém-eleito Presidente, foi a do desporto, o râguebi, modalidade popular na África do Sul, e em que viria a sagrar-se campeã no Mundial de 1995, com uma equipa comandada por François Pienaar.

Morgan Freeman aproxima-nos da figura do político que o mundo conhece e viria a ser distinguido com o Nobel da Paz, um homem sereno e firme, de convicções profundas, consolidadas ao longo de muitos anos de cativeiro que lhe poderiam ter incutido sentimentos de vingança, mas o talharam afinal para a tarefa utópica da reconciliação de dois povos, fundindo-os numa única nação.

Matt Damon é um jovem desportista branco, líder dum grupo de jogadores, na maioria brancos, empenhados num desafio no relvado e sob a pressão dos media que descrêem da possibilidade da equipa atingir os objectivos propostos, tornando-se alvo da chacota do mundo.

O futuro de um país e a paz de uma região africana exigem a cumplicidade dos dois, nos objectivos comuns: a vitória num campeonato, a reconciliação de um povo.

Mesmo sem a sua participação como actor, Clint Eastwood conseguiu com INVICTUS, protagonizado por Morgan Freeman e Matt Damon, um filme empolgante, excelente olhar sobre uma figura ímpar, a merecer-nos 3 écrans, filme com interesse.

Falco Fernandes

(Grande Écran 608, de 28 de Janeiro de 2010)


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