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Nº2270 - Quinta-feira, 2010.JAN.21


 

4 Écrans

 

 

 

 

A Estrada

de John Hillcoat

 

 

A terrível visão do caos numa Terra pós-holocaosto

O filme abre com uma breve sucessão de imagens de paz e harmonia, no exterior de uma casa na época outonal, tingida de tons amarelados das folhas e da luz solar, para passar de imediato ao interior onde um homem se movimenta angustiado e de uma forma precipitada, quando é surpreendido por uma mulher que lhe segue os gestos tomada de surpresa, para depois desviar o olhar para a janela, por onde entram gritos e sons premonitórios.

Tudo não passa de um sonho, o homem acorda, dormia num cenário de ruínas com o filho ao lado, levanta-se lentamente para não o despertar e afasta-se dele sem um ruído, dando início ao longo percurso da estrada que nos levará ao longo do filme, num mundo caótico, num cenário pós-catástrofe, situado a 10 anos de vista de nós.

Começa assim A ESTRADA, em que, conduzidos pelo realizador John Hillcoat, acompanharemos as personagens pai e filho, sozinhos numa luta desesperada pela sobrevivência, em que apenas lhes resta a entreajuda e a aprendizagem mútua, como derradeira hipótese que os levará não sabem onde, nem durante quanto tempo.

O filme parte de uma novela de Cormac McCarthy, adaptada ao cinema por Joe Penhall, a personagem do homem, a que nem é dado nome, foi entregue aos cuidados de Viggo Mortensen, a dispensar apresentações, e o rapaz foi interpretado por Kodi Smit-Mc.Phee, jovem australiano de 13 anos que averbando alguns trabalhos num trajecto de 4 anos, participa aqui na sua segunda longa-metragem, quinto trabalho do realizador australiano.

Deslocam-se num terreno de ruínas e esqueletos, alimentados pela memória cada vez mais difusa do passado e pela meta imperiosa da sobrevivência, despojados de tudo excepto dum carro de supermercado com que transportam todos os seus haveres.

Os dias a que o homem já perdeu a conta, são dispendidos à procura do mínimo que a vida exige, alimentos, água e combustível, evitando os selváticos sobreviventes, organizados em gangs que varrem tudo o que ainda mexe, num tempo dia a dia mais cinzento, em que abundam as armas e o canibalismo se tornou moeda corrente.

O passado que conduziu ao tempo do filme vai-nos sendo revelado através da evocação da memória do homem, enquanto dorme, em sonhos ainda povoados pela sua mulher e mãe do garoto que de modo recorrente toca excertos musicais num piano.

 Um filme cinzento, sóbrio, por vezes duma lentidão esmagadora e asfixiante, como a caminhada do homem e do rapaz, pai e filho, de ritmo marcado pelos sobressaltos sofridos num clima de terror, por onde também passam figuras como a mulher, Charlize Theron, ou o velho com que se cruzam e é protagonizado por um irreconhecível Robert Duvall.

Para uma lição de luta pela sobrevivência em situação limite que se revela A ESTRADA, de John Hillcoat, com Viggo Mortensen e Kodi Smit-Mc-Phee, 4 écrans, filme decididamente a ver.

Falco Fernandes

(Grande Écran 607, de 21 de Janeiro de 2010)


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