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Nº2268 - Quinta-feira, 2010.JAN.14


 

4 Écrans

 

 

 

 

 

Shirin

de Abbas Kiarostami

 

 

Abbas Kiarostami: o elogio das actrizes iranianas

Anunciado para estrear esta semana entre nós e posteriormente retirado da lista, o mais recente filme do realizador iraniano que nos ofereceu pérolas como ONDE É A CASA DO MEU INIMIGO?, ATRAVÉS DAS OLIVEIRAS, O SABOR DA CEREJA, O VENTO LEVAR-NOS-Á ou10, é mais um olhar cristalino, objectivo e puro sobre a realidade, desta feita com o cinema dentro do cinema.

Com  este seu mais recente trabalho, Kiarostami pretende prestar uma homenagem às actrizes de teatro iranianas que se entregam à arte de representar, num país em que as mulheres ainda vivem sujeitas a códigos severos e em que esta actividade é exercida com uma elevada dose de risco e o arrojo indispensável para o enfrentar.

114 actrizes participam no filme, com uma convidada especial, a francesa Juliette Binoche, em relação a quem é impossível dizer qual das paixões mais a inflama na vida profissional: se o teatro que representa com regularidade e excelência, se o cinema que a catapultou para os olhares do mundo que a venera.

Partindo do texto “Koshrow e Shirin”, de Farrideh Golbou, e Inspirado pelo trabalho de Hakim Nezami Ganjavi, o realizador adaptou o belo e trágico romance vivido no século XII entre Shirin, princesa da Arménia, e Khosrow, rei da Pérsia, que se apaixonam mutuamente, levando o rei a abandonar o reino em busca da sua amada e, mais tarde, esta a deixar o trono para o encontrar.

A sucessão de desencontros, indecisões, esperanças desfeitas e mágoas acumuladas por ambos na firme procura da comunhão mútua, acaba por os destruir, transformando com o brutal desenlace este romance numa tragédia, ao melhor estilo da cultura grega, à época já em declínio, mas cujos ecos ainda hoje marcam a nossa cultura e as nossas vidas.

Para além de pegar nesta texto, peça valiosa da cultura clássica iraniana, o génio de Kiarostami manifesta-se na forma escolhida pelo realizador para fazer o seu filme: não nos mostrando imagens do drama vivido na tela do cinema onde decorre a sessão, mas focando a câmara nos rostos das espectadoras que nos vão devolvendo com as expressões, os olhares, porvezes pequenos gestos fugazes das mãos, as emoções que sentem e tentam controlar.

Se a isto adicionarmos o facto de Shirin não ser propriamente o arquétipo oficial da mulher muçulmana, entenderemos toda a dimensão e arrojo de SHIRIN, de Abbas Kiarostami, com 114 actrizes de teatro iranianas e Juliette Binoche, a merecer-nos 4 écrans, filme  decididamente a ver

Falco Fernandes

(Grande Écran 606, de 14 de Janeiro de 2010)


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