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Nº2200 - Quinta-feira, 2009.DEZ.24


 

5 Écrans

 

 

ÁGORA

de Alejandro Amenábar

 

 

 

Uma aula da bela Hipatia,

com o fiel Davus a seu lado

Aos 37 anos de idade e 17 de carreira no cinema, o cineasta espanhol Alejandro Amenábar assinou já um excelente lote de filmes que começou da melhor forma, com o thriller de terror HIMENÓPTERO, uma curta de 20 minutos que escreveu, produziu, filmou, interpretou, montou e musicou, recolhendo os melhores elogios da crítica,

De entre os 7 filmes que já realizou, ressaltam-se o multi-premiado thriller DE OLHOS ABERTOS, de 1997, com Penélope Cruz e Eduardo Noriega, distinguido em Berlim e nos Goya, e, especialmente, o drama biográfico MAR ADENTRO, de 2004, com Javier Bardem, distinguido com um Oscar e outros 59 prémios, passando pelos Prémios do Cinema Europeu, os Globos de Ouro, Veneza e os Goyas, catapultaram-no para um plano com visibilidade mundial.

Cinco anos depois, está de volta com um drama histórico, situado no velho Egipto do século IV, um período já decadente de Alexandria, centrado na filósofa Hipatia, no seu escravo Davus, papeis entregues a Rachel Weisz e Max Minghella, filho do realizador Anthony Minghella, falecido um ano e meio atrás.

Nos primeiros momentos do filme, Hipatia, assistida por Davus, questiona os seus alunos sobre os mistérios do Universo, referindo “as pessoas, animais, objectos e escravos”, por esta ordem, marca de uma época a que esta mulher bela, inteligente e ateia, consegue escapar e mesmo enfrentar até ao limite.

O conflito é desencadeado pelo confronto entre a adesão do escravo ao cristianismo em eclosão, face ao ateísmo da filósofa que ditará o seu fim.

Assente num cenário em que é surpreendente a qualidade posta na reconstituição da Biblioteca de Alexandria, uma das maiores da época e pólo de encontro dos pagãos, Amenábar cuidou ao extremo os mínimos detalhes, de modo a desenhar uma narrativa que cruza as vidas da filósofa e do escravo com a mestria que lhe é característica, roçando o amor e as suas vertentes paixão, domínio e submissão, mas colocando a tónica na divergência de crenças.

Se Hipatia conta com os poderes do estatuto, da sabedoria e da beleza, Davus apoia-se na sua fé cristã, à época no auge da expansão que a transformaria no que ainda hoje é.

Um quase miúdo olha uma maçã apetitosa, esticando até aos limites humanamente possíveis, a capacidade de resistir ao apelo e manter-se fiel ao único bem que possui, a crença no seu Deus, numa luta entre a Fé e o pecado, disputada sobre o gume de uma navalha.

O pano de fundo são as discussões e confrontos individuais em torno das crenças em conflito, arrastando multidões inflamadas que escapam a qualquer controlo ou ténue sinal de bom senso, por oposição à busca tenaz e imperturbável da razão de ser dos fenómenos naturais, tarefa que aproxima mutuamente Hypatia e Davus, mesmo que de distintos pontos de vista.

Com a explosão do fanatismo religioso, o mundo estável do início do filme entrará em derrocada e arrastará na sua queda as personagens que se atrevem a não alinhar pelas maiorias.

Casando muito bem a eterna dualidade Ciência versus Fé e apoiado no bom trabalho dos protagonistas Rachel Weisz e Max Minghella, o realizador Alejandro Amenábar colocou mais um pilar na sua já consolidada carreira com ÁGORA que nos merece 5 écrans, filme decididamente a não perder.

Falco Fernandes

(Grande Écran 603, de 24 de Dezembro de 2009)


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