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Afastando-se sempre da
trivialidade e criando obras que de uma forma ou de
outra quebram a linearidade monocórdica do cinema
mainstream, por alguma razão a produtora se
chama “Revolution Films”, chega às nossas salas esta
semana o penúltimo filme co-escrito realizado pelo
britânico Michael
Winterbottom, quando já tem mais dois em
rodagem e outros tantos em pré-produção.
Começando pela televisão duas décadas atrás e
saltando rapidamente para o cinema, há 13 anos que a
ele se dedica exclusivamente, somando já 18 títulos
e, como se disse, tendo no bolso mais 4 que lhe
preencherão a vida até 2012, pelo menos.
Oscilando entre a ficção e o documentário
ficcionado, foi neste último género que viu melhor
recompensados os seu dotes, especialmente com
A CAMINHO DE
GUANTANAMO
e NESTE
MUNDO,
distinguidos com prémios grandes nos BAFTA e em
Berlim.
O
trabalho que agora nos chega já vem creditado com
dois galardões, um dos quais a Concha de Prata de
Melhor Realizador de San Sebastián, o certame
basco onde é figura querida, presente com
regularidade, na selecção oficial em competição ou
nas Pérolas da Zabaltegi.
Com
uma exemplar condução do fio dramático da narrativa
e assente na meticulosa criação do clima mais
adequado a cada momento,
Winterbottom
relata-nos o trajecto de uma família confrontada com
uma perda irreparável que decide alterar
radicalmente a sua vida, mudando de cãs, de terra,
de país.
A
escolha de Génova como destino está longe de ser
ocasional e a cidade é-lhes revelada e aos olhos dos
espectadores como a pérola de rara beleza que é, mas
deixando a breve trecho entrever, em sucessivos e
fugazes planos, as zonas menos glamourosas e mais
degradadas, insinuando que nem tudo serão rosas no
caminho agora encetado.
Uma
vez instalados na sua nova casa, o pai Ben de volta
ao ensino, a filha mais nova Mary retomando as aulas
de piano e a mais velha Kelly usufruindo de férias,
depressa surgem os primeiros sinais de que o passado
também viajou com eles para Génova e terão de o
enfrentar, ultrapassando as feridas com que os
marcou.
Se a
visita guiada ao submundo da cidade e a festa em que
participam a seguir dão início à integração plena
dos três na sociedade que os rodeia, “Genova, La
Superba” como alguém sublinha, falta a Kelly o
mergulho na noite, com um grupo de jovens
deslocando-se em scooters por caminhos em que a vida
palpita, de uma forma fascinante para a menina que
está em vias de crescer.
Winterbottom
resolve o drama que escreveu e filmou de forma
habilidosa, seguindo um caminho sinuoso como é o da
própria vida, mas deixando à reflexão do espectador
muito que fica por dizer, mas se apercebe nas
entrelinhas desta ficção.
Para
GÉNOVA,
de
Michael Winterbottom,
com Colin Firth,
Perla Haney-Jardine, Willa Holland, Catherine Keener,
4 écrans, filme decididamente a ver.
Falco Fernandes
(Grande Écran
575 de 11 de Junho) |