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1935/2009

domingo

abr.26

Redacção: António Sousa, Nuno Pedro, Raquel Silva,  Isabel Santos e Falco Fernandes

XVI Caminhos do Cinema Português

18 a 26 de Maio - Coimbra, Portugal

  

 

 

Balanço

desta Edição

 

 

AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO,

de Miguel Gomes, distinguido com o

Grande Prémio dos Caminhos 2009

Pela grande montra da produção nacional, como olhamos os “Caminhos do Cinema Português”, passa, ano após ano, grande parte dos filmes que se fazem neste país, curtas e longas-metragens, ficções e documentários, imagens reais e animação, havendo já muito a merecer destaque, quando estamos a dois dias do final e momento alto do certame, a noite dos prémios, este ano com uma imagem renovada, da autoria do arquitecto Eduardo Nascimento.

Digna de referência, é grande a variedade de curtas, desde a animação “Cândido”, uma história de solidão, com o cunho inconfundível de Zepe, premiado em anterior edição, a “Guisado de Galinha” de Joana Toste, tal como o anterior, detentor de muitos prémios nos mais diversos festivais.

“Diário de Uma Inspectora do Livro de Recordes” de Tiago Albuquerque, uma animação com um grande potencial para novas viagens à procura de outros recordes, a primeira obra “Tudo Por Um Gelado” de Joana, Chris, Karina, Jaen, Cátia e Marisa, jovens estudantes de cinema das ilhas açorianas, distinguido no Festival de Cinema do Faial e que arrancou muitos aplausos na sala do TAGV, a animação de João Rodrigues e Soetkin Verstegen “The Tile Jail – Toilet Tale”, uma deliciosa menina que em 2D e depois de um estranho acontecimento vira 3D, e “À Flor da Pele” de Nuno Portugal, uma homenagem ao film noir e à femme fatale, são outras tantas curtas reclamando especial atenção de quem se interesse por cinema.

No género “imagens e documentos”, habitualmente designado como documentário, e logo na primeira sessão, a estreia da jovem Diana Gonçalves que sobre a linha virtual que separa o norte do país da Galiza, construiu o seu "Mulheres da Raia", um documento de 42 minutos feito a expensas próprias e recorrendo ao BdosP (leia-se banco dos pais), para relatar a dura vida das mulheres que alimentavam a família com os proventos do contrabando, nos anos sessenta.

Neste género maior do cinema, sobressaíram trabalhos como “Au Revoir Portugal – O Salto” de Carlos Domingos, sobre os homens e mulheres que nos anos 60 e 70 passaram a salto a fronteira em busca de uma vida mais desafogada em França; “O meu Amigo Mike ao Trabalho” dum Fernando Lopes rejuvenescido pelo digital, o tributo à obra de Mike Biberstein, pintor que escolheu Portugal há mais de 2 décadas para viver e que acedeu a deixar o seu amigo registar a criação dum quadro, dum modo verdadeiramente invulgar; ou ainda o belíssimo "Corpo Todo", de Pedro Sena Nunes, um filme em que o realizador persiste na transversalidade e cruzamento das artes, aqui abordando em condições muito especiais a relação entre o ser humano e o seu corpo, com um tratamento que traz o inconfundível cunho do autor.

A merecer uma menção muito especial, “Falamos de António Campos” de Catarina Alves Costa, repõe a verdade sobre a vida e obra de um homem injustiçado, começando pela Cinemateca Portuguesa de Bénard da Costa e culminando na cegueira atávica da crítica de cinema no nosso país, para com o autor de filmes como “Almadraba Atuneira”, considerado por muitos o melhor documentário português de sempre.

“Aquele Querido Mês de Agosto” de Miguel Gomes trouxe a Coimbra muitos dos actores que participaram neste fantástico documentário ficcionado de longa-metragem que regista o mês de Agosto, em que muitos regressam a uma “terra” que mantém no coração durante 30 dias em cada ano, partindo já com as saudades do próximo ano.

A primeira longa-metragem exibida no festival, “A Ilha dos Escravos” de Francisco Manso, é um drama baseado em factos verídicos passados no final do século XIX, em Cabo Verde, em que um homem chegado do continente se aproxima do fazendeiro mais rico para lhe propor um negócio de importações e tentar chegar até Maria Júlia, a herdeira de toda a fortuna.

Uma sala bem preenchida assistiu ao terceiro e mais recente filme de Raquel Freire, “Veneno Cura”, drama passado no submundo da cidade do Porto, senhor de uma narrativa perturbadora, duma interpretação de qualidade, duma fotografia excelente.

 “Second Life” contou com a presença do seu co-realizador e produtor Alexandre Cebrian Valente que conseguiu encher a sala, motivar uma longa e animada conversa com o público, partilhada com Anna da Palma, que vira o seu “Lisbon Calling”, encomenda do Arté realizada em telemóvel e exibida na mesma sessão.

Por seu turno, rodeado de grande euforia por parte do público, Nicolau Breyner apresentou e seduziu a sala repleta do TAGV com a sua primeira obra “Contrato”, um thriller cheio de ritmo com Pedro Lima, um autêntico Bond à portuguesa.

O realizador João Botelho apresentou e debateu no final o belíssimo “A Corte do Norte”, baseado num romance de Agustina Bessa Luís e protagonizado por Ana Moreira em cinco papéis diferentes, alguns em diversas idades, mantendo numeroso público colado ao ecrã, a despeito da complexa narrativa.

De Paolo Marinou-Blanco, vimos “Goodnight Irene” um filme sobre a solidão, saudade e busca por algo ou alguém que desapareceu, e o já premiado “Entre os Dedos” de Tiago Guedes e Frederico Serra, uma história de uma família que enfrenta inúmeras dificuldades, filme a preto e branco com imagens de grande qualidade estética.

As projecções dos “Caminhos 2009” encerraram com chave de ouro, a todos os níveis, desde logo com a curta “Cântico Negro”, de Hélder Magalhães que de uma assentada, vampirizou Régio, Villaret, Beethoven e Bethânia, os três primeiros seguramente às voltas no túmulo e a quarta ignorando a abusiva utilização da sua voz, cuidadosamente distorcida.

O clímax foi atingido com “100 Volta”, de Daniel Souza, excelente exemplo do mais puro cinema kitsch, distribuído graças à ingenuidade de Francisco Bravo Ferreira que o realizador não perdeu a oportunidade de insultar no palco do TAGV, afirmando que "não mexeu uma palha pelo filme".

Impossível deixar passar em claro a obra do realizador José Meireles, presente com 5 filmes a concurso e que marcou esta edição dos Caminhos de forma indelével, levantando mesmo a questão de até que ponto se imporia a criação do “Prémio José Meireles”, autêntico Ed Wood lusitano

Isabel Santos / Falco Fernandes

 

 

 

 

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