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Pela grande montra da produção
nacional, como olhamos os “Caminhos do Cinema
Português”, passa, ano após ano, grande parte dos
filmes que se fazem neste país, curtas e
longas-metragens, ficções e documentários, imagens
reais e animação, havendo já muito a merecer
destaque, quando estamos a dois dias do final e
momento alto do certame, a noite dos prémios, este
ano com uma imagem renovada, da autoria do
arquitecto Eduardo Nascimento.
Digna de referência, é grande a
variedade de curtas, desde a animação “Cândido”, uma
história de solidão, com o cunho inconfundível de
Zepe, premiado em anterior edição, a “Guisado de
Galinha” de Joana Toste, tal como o anterior,
detentor de muitos prémios nos mais diversos
festivais.
“Diário de Uma Inspectora do Livro de
Recordes” de Tiago Albuquerque, uma animação com um
grande potencial para novas viagens à procura de
outros recordes, a primeira obra “Tudo Por Um
Gelado” de Joana, Chris, Karina, Jaen, Cátia e
Marisa, jovens estudantes de cinema das ilhas
açorianas, distinguido no Festival de Cinema do
Faial e que arrancou muitos aplausos na sala do TAGV,
a animação de João Rodrigues e Soetkin Verstegen
“The Tile Jail – Toilet Tale”, uma deliciosa menina
que em 2D e depois de um estranho acontecimento vira
3D, e “À Flor da Pele” de Nuno Portugal, uma
homenagem ao film noir e à femme fatale,
são outras tantas curtas reclamando especial atenção
de quem se interesse por cinema.
No género “imagens e documentos”,
habitualmente designado como documentário, e
logo na primeira
sessão, a estreia da jovem Diana Gonçalves que sobre
a linha virtual que separa o norte do país da
Galiza, construiu o seu "Mulheres da Raia", um
documento de 42 minutos feito a expensas próprias e
recorrendo ao BdosP (leia-se banco dos pais), para
relatar a dura vida das mulheres que alimentavam a
família com os proventos do contrabando, nos anos
sessenta.
Neste género maior
do cinema, sobressaíram trabalhos como “Au Revoir
Portugal – O Salto” de Carlos Domingos, sobre os
homens e mulheres que nos anos 60 e 70 passaram a
salto a fronteira em busca de uma vida mais
desafogada em França; “O meu Amigo Mike ao Trabalho”
dum Fernando Lopes rejuvenescido pelo digital, o
tributo à obra de Mike Biberstein, pintor que
escolheu Portugal há mais de 2 décadas para viver e
que acedeu a deixar o seu amigo registar a criação
dum quadro, dum modo verdadeiramente invulgar; ou
ainda o
belíssimo "Corpo Todo", de Pedro Sena Nunes, um
filme em que o realizador persiste na
transversalidade e cruzamento das artes, aqui
abordando em condições muito especiais a relação
entre o ser humano e o seu corpo, com um tratamento
que traz o inconfundível cunho do autor.
A merecer uma menção muito especial,
“Falamos de António Campos” de Catarina Alves Costa,
repõe a verdade sobre a vida e obra de um homem
injustiçado, começando pela Cinemateca Portuguesa de
Bénard da Costa e culminando na cegueira atávica da
crítica de cinema no nosso país, para com o autor de
filmes como “Almadraba Atuneira”, considerado por
muitos o melhor documentário português de sempre.
“Aquele Querido Mês de Agosto” de
Miguel Gomes trouxe a Coimbra muitos dos actores que
participaram neste fantástico documentário
ficcionado de longa-metragem que regista o mês de
Agosto, em que muitos regressam a uma “terra” que
mantém no coração durante 30 dias em cada ano,
partindo já com as saudades do próximo ano.
A primeira longa-metragem exibida no
festival, “A Ilha dos Escravos” de Francisco Manso,
é um drama baseado em factos verídicos passados no
final do século XIX, em Cabo Verde, em que um homem
chegado do continente se aproxima do fazendeiro mais
rico para lhe propor um negócio de importações e
tentar chegar até Maria Júlia, a herdeira de toda a
fortuna.
Uma sala bem preenchida assistiu ao
terceiro e mais recente filme de Raquel Freire,
“Veneno Cura”, drama passado no submundo da cidade
do Porto, senhor de uma narrativa perturbadora, duma
interpretação de qualidade, duma fotografia
excelente.
“Second Life” contou com a presença
do seu co-realizador e produtor Alexandre Cebrian
Valente que conseguiu encher a sala, motivar uma
longa e animada conversa com o público, partilhada
com Anna da Palma, que vira o seu “Lisbon Calling”,
encomenda do Arté realizada em telemóvel e exibida
na mesma sessão.
Por seu turno, rodeado de grande
euforia por parte do público, Nicolau Breyner
apresentou e seduziu a sala repleta do TAGV com a
sua primeira obra “Contrato”, um thriller cheio de
ritmo com Pedro Lima, um autêntico Bond à
portuguesa.
O realizador João Botelho apresentou
e debateu no final o belíssimo “A Corte do Norte”,
baseado num romance de Agustina Bessa Luís e
protagonizado por Ana Moreira em cinco papéis
diferentes, alguns em diversas idades, mantendo
numeroso público colado ao ecrã, a despeito da
complexa narrativa.
De Paolo Marinou-Blanco, vimos
“Goodnight Irene” um filme sobre a solidão, saudade
e busca por algo ou alguém que desapareceu, e o já
premiado “Entre os Dedos” de Tiago Guedes e
Frederico Serra, uma história de uma família que
enfrenta inúmeras dificuldades, filme a preto e
branco com imagens de grande qualidade estética.
As projecções dos “Caminhos 2009”
encerraram com chave de ouro, a todos os níveis,
desde logo com a curta “Cântico Negro”, de Hélder
Magalhães que de uma assentada, vampirizou Régio,
Villaret, Beethoven e Bethânia, os três primeiros
seguramente às voltas no túmulo e a quarta ignorando
a abusiva utilização da sua voz, cuidadosamente
distorcida.
O clímax foi atingido com “100
Volta”, de Daniel Souza, excelente exemplo do mais
puro cinema kitsch, distribuído graças à
ingenuidade de Francisco Bravo Ferreira que o
realizador não perdeu a oportunidade de insultar no
palco do TAGV, afirmando que "não mexeu uma palha
pelo filme".
Impossível deixar passar em claro a obra do
realizador José Meireles, presente com 5 filmes a
concurso e que marcou esta edição dos Caminhos de
forma indelével, levantando mesmo a questão de até
que ponto se imporia a criação do “Prémio José
Meireles”, autêntico Ed Wood lusitano
Isabel
Santos /
Falco
Fernandes |