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O segundo dia dos Caminhos
do Cinema Português, domingo dia 19, depois de
várias peripécias menos felizes, encerrou com a
exibição dum filme que constituiu uma surpresa para
quantos enchiam a sala para assistir à exibição
de
SECOND LIFE, de
Alexandre Cebrian Valente e
Miguel Gaudêncio,
com argumento do primeiro que se ocupou da Direcção
Artística, cabendo a Direcção Técnica ao
co-realizador.
O filme coloca uma questão, desde
logo denunciada pelo título, como seria a nossa vida
se nos fosse dada uma segunda oportunidade, após a
nossa morte? O seu curso seguiria sem alterações ou
tudo sofreria uma reviravolta e, nesse caso, para
melhor ou para pior?
Valente coloca a questão através
de Nicholas, a personagem em torno da qual gira a
história, um realizador de cinema que leva uma vida
aparentemente confortável, sem grande dificuldade em
cativar as mulheres, mas guarda em si o sonho
recorrente de se rever flutuando sem vida numa
piscina, enquanto os seus amigos mais próximos e a
sua mulher, comentam amargurados o momento trágico
que vivem, no dia do seu 40º aniversário e após uma
festa em que muitos segredos escondidos são
revelados.
A imagem abre sobre uma magnífica
viagem de balão que leva Nicholas e sua mulher Sara,
duas excelentes interpretações de
Piotr Adamczyk e
Lúcia Moniz, a
sobrevoarem a beleza infinda da planície alentejana,
como que numa antevisão de que algo está para subir
ao céu, por exemplo a alma de Nick que grita à
mulher "Este foi o dia mais feliz da minha vida!",
como que um canto de cisne, após o que apenas
resta partir desta vida.
Para além da intensidade da cena,
registe-se o modo exemplar como foi filmada, com
muitos espectadores a dizer no final nunca terem
visto u filme português rodado assim, o que pode ser
o emergir da sanha crítica que persegue o filme dum
homem que começou no cinema como motorista, foi
técnico 25 anos, virou produtor prescindindo das
esmolas do sistema (o pecado maior) e, coisa
ofensiva e inadmissível, virou agora realizador.
A este casal, vivendo uma
felicidade virtual, começam a juntar-se as diversas
personagens que completarão um microcosmos da nossa
média-alta burguesia, compondo na herdade alentejana
em que a acção decorre, o quadro que prenderá ao
ecrã os espectadores, ao longo de 85 minutos.
Tal assenta na história
trabalhada, na duração ideal ao cinema
main-stream, numa criteriosa escolha do elenco,
na adopção do ritmo mais adequado, no cuidado
estremo posto na imagem por
Acácio de Almeida (aliás presente numa
bela fotografia exposta num dos pólos da acção), na
música com a excelência de
Bernardo Sassetti, na qualidade das
misturas de Branco Neskov,
na forma como Alexandre
Valente colocou todos estes factores ao
serviço dum filme que, como ouvi alguém referir, "nem
parece português".
Sara prepara a Nicholas, contra a
vontade deste, uma festa para o que contrata um
casal de criados (interpretados por
Tiago Rodrigues
e Sofia Grilo) e
a que vão chegando sucessivamente Pepe (Paulo
Pires) e a sua mulher Marta (Fátima
Lopes), Luca (Pedro
Lima) e a sua mulher Liza (Sandra Cóias),
Raquel (Liliana Santos).
A tensão insinua-se à chegada de
cada um, instalando-se quando finalmente se sentam à
mesa e eclodindo ao longo do serão. A noite será uma
mistura de recordações e revelações, encontros e
confrontos que conduzirão ao desenlace final, cedo
anunciado, mas onde se chega por um caminho tortuoso
e acidentado, em que Valente recorre à
descontinuidade temporal, forçando-nos a reconstruir
o filme, à medida que as imagens e os sons desfilam
no ecrã.
De destacar as presenças no
elenco de nomes como
Cláudia Vieira, no papel de Claudia, a
primeira mulher de Nicholas, de
Nicolau Breyner,
no ex-sogro Don Francesco, de
Ana Padrão, na florista do aeroporto,
de Rita Andrade,
numa assistente de terra, e no de
José Carlos Malato,
num inspector da polícia.
Para
SECOND LIFE, de
Alexandre Valente, com
Piotr Adamczyk e
Lúcia Moniz nos
papéis principais, 4
ecrãs, filme decididamente a ver.
Falco
Fernandes
(Grande Écran
568 de 23 de Abril)
N.R.:
SECOND LIFE é um
dos filmes mais desancados por cineastas e críticos,
à priori contra qualquer filme que atinja uma
audiência razoável, que saia da habitual mediania do
cinema português, isto é, que vá muito além dos
habituais 1000 a 5000 espectadores e, portanto, dê
dinheiro, considerado um pecado mortal no cinema depressivo, chato e de pé
descalço que durante muito tempo foi quase exclusivo
entre nós.
Nos jornais e
revistas, o filme mereceu sistematicamente
"bola preta" e no IMDb, está classificado
com 4,1 pontos, atribuídos por 115 votantes (quantos
"críticos de cinema" teremos?...), mas aconselhamos
vivamente uma leitura atenta dos "User comments" do
site em
http://www.imdb.com/title/tt1285248/usercomments.
De entre a colecção
de dislates, sublinhe-se a classificação de "flop"
ao filme que ocupa a segunda posição no ranking dos
filmes portugueses estreados desde 1 de Janeiro de
2008 a 31 de Março de 2009, com quase 90 mil
espectadores, seguindo-se-lhe
CONTRATO, de
Nicolau Breyner, estreado duas semanas
antes e com cerca de metade dos espectadores.
Abaixo do "flop",
estão filmes como o excelente
AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de
Miguel Gomes,
com 20 mil espectadores,
CRISTÓVÃO COLOMBO - O ENIGMA, de
Oliveira, com
menos de 6 mil, ou ESTA
NOITE, de
Schroeter, com menos de mil...
Quanto à qualidade
intrínseca do filme e cada qual tem direito à sua,
mesmo que seja cego e surdo, basta uma olhadela
superficial ao que sobre ele dizem para chegar às
devidas conclusões, perante as quais, "palavras para
quê?"
Três presenças de peso no filme: Nicolau
Breyner (D. Francesco), Liliana
Santos (Raquel) e Lúcia Moniz
(Sara) |