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1934/2009

quinta

abr.23

Redacção: António Sousa, Nuno Pedro, Raquel Silva,  Isabel Santos e Falco Fernandes

XVI Caminhos do Cinema Português

18 a 26 de Abril - Coimbra, Portugal

 

  

4 écrans

 

SECOND LIFE

de Alexandre Cebrian Valente

e Miguel Gaudêncio

 

Um incómodo corpo flutuando numa piscina

cuja morte revelará uma emaranhada teia de segredos

 O segundo dia dos Caminhos do Cinema Português, domingo dia 19, depois de várias peripécias menos felizes, encerrou com a exibição dum filme que constituiu uma surpresa para quantos enchiam a sala para assistir à exibição de SECOND LIFE, de Alexandre Cebrian Valente e Miguel Gaudêncio, com argumento do primeiro que se ocupou da Direcção Artística, cabendo a Direcção Técnica ao co-realizador.

O filme coloca uma questão, desde logo denunciada pelo título, como seria a nossa vida se nos fosse dada uma segunda oportunidade, após a nossa morte? O seu curso seguiria sem alterações ou tudo sofreria uma reviravolta e, nesse caso, para melhor ou para pior?

Valente coloca a questão através de Nicholas, a personagem em torno da qual gira a história, um realizador de cinema que leva uma vida aparentemente confortável, sem grande dificuldade em cativar as mulheres, mas guarda em si o sonho recorrente de se rever flutuando sem vida numa piscina, enquanto os seus amigos mais próximos e a sua mulher, comentam amargurados o momento trágico que vivem, no dia do seu 40º aniversário e após uma festa em que muitos segredos escondidos são revelados.

A imagem abre sobre uma magnífica viagem de balão que leva Nicholas e sua mulher Sara, duas excelentes interpretações de Piotr Adamczyk e Lúcia Moniz, a sobrevoarem a beleza infinda da planície alentejana, como que numa antevisão de que algo está para subir ao céu, por exemplo a alma de Nick que grita à mulher "Este foi o dia mais feliz da minha vida!", como que um canto  de cisne, após o que apenas resta partir desta vida.

Para além da intensidade da cena, registe-se o modo exemplar como foi filmada, com muitos espectadores a dizer no final nunca terem visto u filme português rodado assim, o que pode ser o emergir da sanha crítica que persegue o filme dum homem que começou no cinema como motorista, foi técnico 25 anos, virou produtor prescindindo das esmolas do sistema (o pecado maior) e, coisa ofensiva e inadmissível, virou agora realizador.

A este casal, vivendo uma felicidade virtual, começam a juntar-se as diversas personagens que completarão um microcosmos da nossa média-alta burguesia, compondo na herdade alentejana em que a acção decorre, o quadro que prenderá ao ecrã os espectadores, ao longo de 85 minutos.

Tal assenta na história trabalhada, na duração ideal ao cinema main-stream, numa criteriosa escolha do elenco, na adopção do ritmo mais adequado, no cuidado estremo posto na imagem por Acácio de Almeida (aliás presente numa bela fotografia exposta num dos pólos da acção), na música com a excelência de Bernardo Sassetti, na qualidade das misturas de Branco Neskov, na forma como Alexandre Valente colocou todos estes factores ao serviço dum filme que, como ouvi alguém referir, "nem parece português".

Sara prepara a Nicholas, contra a vontade deste, uma festa para o que contrata um casal de criados (interpretados por Tiago Rodrigues e Sofia Grilo) e a que vão chegando sucessivamente Pepe (Paulo Pires) e a sua mulher Marta (Fátima Lopes), Luca (Pedro Lima) e a sua mulher Liza (Sandra Cóias), Raquel (Liliana Santos).

A tensão insinua-se à chegada de cada um, instalando-se quando finalmente se sentam à mesa e eclodindo ao longo do serão. A noite será uma mistura de recordações e revelações, encontros e confrontos que conduzirão ao desenlace final, cedo anunciado, mas onde se chega por um caminho tortuoso e acidentado, em que Valente recorre à descontinuidade temporal, forçando-nos a reconstruir o filme, à medida que as imagens e os sons desfilam no ecrã.

De destacar as presenças no elenco de nomes como Cláudia Vieira, no papel de Claudia, a primeira mulher de Nicholas, de Nicolau Breyner, no ex-sogro Don Francesco, de Ana Padrão, na florista do aeroporto, de Rita Andrade, numa assistente de terra, e no de José Carlos Malato, num inspector da polícia.

Para SECOND LIFE, de Alexandre Valente, com Piotr Adamczyk e Lúcia Moniz nos papéis principais, 4 ecrãs, filme decididamente a ver.

Falco Fernandes

(Grande Écran 568 de 23 de Abril)

N.R.: SECOND LIFE é um dos filmes mais desancados por cineastas e críticos, à priori contra qualquer filme que atinja uma audiência razoável, que saia da habitual mediania do cinema português, isto é, que vá muito além dos habituais 1000 a 5000 espectadores e, portanto, dê dinheiro, considerado um pecado mortal no cinema depressivo, chato e de pé descalço que durante muito tempo foi quase exclusivo entre nós.

Nos jornais e revistas, o filme mereceu sistematicamente "bola preta" e no IMDb, está classificado com 4,1 pontos, atribuídos por 115 votantes (quantos "críticos de cinema" teremos?...), mas aconselhamos vivamente uma leitura atenta dos "User comments" do site em http://www.imdb.com/title/tt1285248/usercomments.

De entre a colecção de dislates, sublinhe-se a classificação de "flop" ao filme que ocupa a segunda posição no ranking dos filmes portugueses estreados desde 1 de Janeiro de 2008 a 31 de Março de 2009, com quase 90 mil espectadores, seguindo-se-lhe CONTRATO, de Nicolau Breyner, estreado duas semanas antes e com cerca de metade dos espectadores.

Abaixo do "flop", estão filmes como o excelente AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de Miguel Gomes, com 20 mil espectadores, CRISTÓVÃO COLOMBO - O ENIGMA, de Oliveira, com menos de 6 mil, ou ESTA NOITE, de Schroeter, com menos de mil...

Quanto à qualidade intrínseca do filme e cada qual tem direito à sua, mesmo que seja cego e surdo, basta uma olhadela superficial ao que sobre ele dizem para chegar às devidas conclusões, perante as quais, "palavras para quê?"

 

Três presenças de peso no filme: Nicolau Breyner (D. Francesco), Liliana Santos (Raquel) e Lúcia Moniz (Sara)

 

 

 

 

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