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Todas as cidades têm uma alma
própria, como descobrimos há muitos anos com
DOURO, FAINA FLUVIAL
de Oliveira,
mais de meio século depois com
A CIDADE BRANCA de
Tanner e há 15
anos com VIAGEM A LISBOA
de Wenders, duas
cidades, três épocas e sobretudo três olhares sobre
corpos vivos, como são Porto e Lisboa.
Depois de se estrear com a curta
RIO VERMELHO,
rodada no Porto em 1999, a que se seguiu a longa
RASGANÇO,
em 2001, um controverso olhar sobre o meio académico
conimbricense, Raquel
Freire ofereceu-nos em 2007
VENENO CURA,
vertiginoso mergulho numa zona obscura e subterrânea
da capital nortenha, um naco da alma da cidade que
escapa à maioria das gentes que aí vivem e labutam,
uma zona interdita aos forasteiros que a atravessam
de passagem, olhar fixo nos monumentos, nas pontes,
no Douro.
A casa de espectáculos
"Imperatriz" é uma sede movida pelo álcool, os
fumos, o erotismo e o strip-tease, pólo de
confluência de uma clientela que abrange todo o
espectro do mais elevado espectro social nortenho e
a que as pessoas recorrem na busca do veneno e do
antídoto que lhes faculte a cura, aprisionando-as ou
libertando-as.
Acima de tudo, que as mantenha
vivas, nesta vida cinzenta e amorfa que todos
levamos.
Quanto mais não seja, para lhes
permitir encarar a morte nos olhos e nela
mergulharem conscientes do alto de uma ponte,
regressando ao ventre aquático do Rio do Ouro que
tira a vida às pessoas e dá vida à cidade que existe
em função dele.
É preciso esperar a noite, o
despertar da "Imperatriz" e ter o arrojo para entrar
num útero de morte, caminhando sobre o fio de uma
navalha, onde o risco espreita dos nichos sedutores,
estende-se ao meio da pista, descansa nos sofás
acolhedores ou pode surgir ao dobrar de uma qualquer
esquina, detrás de uma coluna, inesperadamente, com
uma certeza fatal.
Pode parecer um espaço estranho
na vida da cidade são-joanina, mas é um órgão de um
corpo complexo, sem o qual a cidade não seria a
mesma e perderia um pedaço essencial da sua própria
alma.
A realizadora teve o arrojo de
mergulhar de cabeça nesse mundo sem naufragar,
emergindo numa ressurreição luminosa chamada
VENENO CURA,
cujo título retrata duma forma cirurgicamente
precisa e concisa o trajecto percorrido pela
realizadora e a sua obra.
A "Imperatriz" remete-nos de
certa maneira para o "Paradise Club" de Ferrara, mas
assume uma forma mais radical e decisiva, como
centro de vida e de morte, de que ninguém sai
redimido e se pressente, desde o início, que o
destino das personagens é seguramente o inferno, se
é que não estão já lá. É como um vórtice em que a
margem de esperança, a nesga de fuga se estreita,
até asfixiar quem tente sair, tal como a morte nos
suga à medida que lutamos contra ela e a vida se nos
escapa das mãos quando tentamos segurá-la, como a
areia de Gibran se escapa das mãos do homem que
tenta desesperadamente segurá-la.
Recorde-se as palavras da
realizadora na declaração de intenções de
RASGANÇO,
quando afirma "Conheci Deus e o Diabo na Terra do
Sol", para se entender com que ganas optou por
segurar a vida com ambas as mãos.
Uma belíssima coreografia, as
personagens desenhadas com um rigor lancinante, uma
fotografia notável, restituem ao nosso olhar um
reflexo cru da condição humana, facilmente
extrapolável do casulo onde criou e situou o seu
filme que vale, pela provocação e incómodo que
causa,
Em vias de sair em DVD, para
VENENO CURA,
de Raquel Freire,
com Margarida Carvalho,
Sofia Marques, Sandra Rosado, Miguel Moreira, Márcia
Breia, Maria d'Aires,
4 ecrãs, filme
decididamente a ver.
Falco
Fernandes
(Grande Écran
568 de 23 de Abril) |