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1933/2009

segunda

abr.20

Redacção: António Sousa, Nuno Pedro, Raquel Silva,  Isabel Santos e Falco Fernandes

XVI Caminhos do Cinema Português

18 a 26 de Maio - Coimbra, Portugal

 

  

4 écrans

 

 

VENENO CURA

de Raquel Freire

 

A mais recente provocação, da jovem cineasta

nascida para o cinema em Coimbra que agora a rejeita

Todas as cidades têm uma alma própria, como descobrimos há muitos anos com DOURO, FAINA FLUVIAL de Oliveira, mais de meio século depois com A CIDADE BRANCA de Tanner e há 15 anos com VIAGEM A LISBOA de Wenders, duas cidades, três épocas e sobretudo três olhares sobre corpos vivos, como são Porto e Lisboa.

Depois de se estrear com a curta RIO VERMELHO, rodada no Porto em 1999, a que se seguiu a longa RASGANÇO, em 2001, um controverso olhar sobre o meio académico conimbricense, Raquel Freire ofereceu-nos em 2007 VENENO CURA, vertiginoso mergulho numa zona obscura e subterrânea da capital nortenha, um naco da alma da cidade que escapa à maioria das gentes que aí vivem e labutam, uma zona interdita aos forasteiros que a atravessam de passagem, olhar fixo nos monumentos, nas pontes, no Douro.

A casa de espectáculos "Imperatriz" é uma sede movida pelo álcool, os fumos, o erotismo e o strip-tease, pólo de confluência de uma clientela que abrange todo o espectro do mais elevado espectro social nortenho e a que as pessoas recorrem na busca do veneno e do antídoto que lhes faculte a cura, aprisionando-as ou libertando-as.

Acima de tudo, que as mantenha vivas, nesta vida cinzenta e amorfa que todos levamos.

Quanto mais não seja, para lhes permitir encarar a morte nos olhos e nela mergulharem conscientes do alto de uma ponte, regressando ao ventre aquático do Rio do Ouro que tira a vida às pessoas e dá vida à cidade que existe em função dele.

É preciso esperar a noite, o despertar da "Imperatriz" e ter o arrojo para entrar num útero de morte, caminhando sobre o fio de uma navalha, onde o risco espreita dos nichos sedutores, estende-se ao meio da pista, descansa nos sofás acolhedores ou pode surgir ao dobrar de uma qualquer esquina, detrás de uma coluna, inesperadamente, com uma certeza fatal.

Pode parecer um espaço estranho na vida da cidade são-joanina, mas é um órgão de um corpo complexo, sem o qual a cidade não seria a mesma e perderia um pedaço essencial da sua própria alma.

A realizadora teve o arrojo de mergulhar de cabeça nesse mundo sem naufragar, emergindo numa ressurreição luminosa chamada VENENO CURA, cujo título retrata duma forma cirurgicamente precisa e concisa o trajecto percorrido pela realizadora e a sua obra.

A "Imperatriz" remete-nos de certa maneira para o "Paradise Club" de Ferrara, mas assume uma forma mais radical e decisiva, como centro de vida e de morte, de que ninguém sai redimido e se pressente, desde o início, que o destino das personagens é seguramente o inferno, se é que não estão já lá. É como um vórtice em que a margem de esperança, a nesga de fuga se estreita, até asfixiar quem tente sair, tal como a morte nos suga à medida que lutamos contra ela e a vida se nos escapa das mãos quando tentamos segurá-la, como a areia de Gibran se escapa das mãos do homem que tenta desesperadamente segurá-la.

Recorde-se as palavras da realizadora na declaração de intenções de RASGANÇO, quando afirma "Conheci Deus e o Diabo na Terra do Sol", para se entender com que ganas optou por segurar a vida com ambas as mãos.

Uma belíssima coreografia, as personagens desenhadas com um rigor lancinante, uma fotografia notável, restituem ao nosso olhar um reflexo cru da condição humana, facilmente extrapolável do casulo onde criou e situou o seu filme que vale, pela provocação e incómodo que causa,

Em vias de sair em DVD, para VENENO CURA, de Raquel Freire, com Margarida Carvalho, Sofia Marques, Sandra Rosado, Miguel Moreira, Márcia Breia, Maria d'Aires, 4 ecrãs, filme decididamente a ver.

Falco Fernandes

(Grande Écran 568 de 23 de Abril)

 

 

 

 

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