Hoje já não vi filmes. Comecei o dia com a
conferência de imprensa de
Paul Thomas Anderson que aqui veio
receber o "Grande prémio FIPRESCI"
para melhor filme do ano, pelo seu
HAVERÁ SANGUE.
Um intervalo para uma refeição ligeira e a
espera pela divulgação do
palmarés do Festival.
Em respeito absoluto pela tradição, o
Júri Oficial da
56ª edição do Festival de San Sebastián
deixou fora do palmarés o filme que mais se
destacou, mas a grande distância, entre
todos os que se apresentaram a concurso. É
evidente que estas coisas têm uma grande
dose de subjectividade, mas custa-nos
bastante entender os critérios de um grupo
de pessoas tão profissional e que incluiu,
entre outros, nomes como
Jonathan Demme,
Clare Peploe e
Michael Ballhaus. É curioso realçar que
apenas duas organizações que aqui entregam
prémios não oficiais, o Círculo de
Escritores Cinematográficos e a Signis
(Organização Católica para o Cinema e
Audiovisuais), esta com uma menção especial,
tenham distinguido
ARUITEMO, ARUITEMO (Still
Walking) de
Hirokazu Kore-Eda, filme que
liderava todas as classificações promovidas
pelos principais jornais de Espanha.
Apesar de tudo, a "Concha de Ouro para
Melhor Filme" acabou por ser atribuída a
um dos poucos filmes com mérito assinalável,
e que destacámos oportunamente em textos
anteriores. Trata-se de
A CAIXA DE PANDORA da turca
Yesim Ustaoglu, uma interessante
abordagem dos conflitos geracionais,
potenciados pelo aparecimento da doença de
Alzheimer numa senhora idosa, magnificamente
interpretada por
Tsilla Chelton. À actriz francesa,
foi, de resto, atribuída a "Concha de
Prata para Melhor Actriz", ex-aequo com
Melissa Leo protagonista de
RIO GELADO da norte-america
Courtney Hunt. Esta terá sido a
decisão do júri melhor acolhida pelos
jornalistas que lotaram por completo a sala
onde foram anunciados os prémios.
A "Concha de Prata para o Melhor Actor"
foi para
Oscar Martínez no filme argentino
EL NIDO VACÍO, que também viu
distinguida a fotografia de
Hugo Colace. O extravagante e
bizarro
LOUISE MICHEL de
Benoît Delépine e
Gustave de Kervern recebeu o "Prémio
do Júri para o melhor Argumento", o
britânico
Michael Winterbottom a "Concha de
Prata para o Melhor Realizador" com
GENOVA e o "Prémio Especial
do Júri" recaiu em
O CAVALO DE DUAS PERNAS da
iraniana
Samira Makhmalbaf.
A
THE EQUATION OF LOVE AND DEATH
de
Cao Baoping (China/Hong Kong) foi
atribuído o "Prémio Altadis - Novos
Realizadores", enquanto
GASOLINA do guatemalteco
Julio Hernandez Cordon foi o
vencedor da secção
Horizontes Latinos.
De referir também que o "Prémio da
Juventude" foi para
AMOROSA SOLEDAD de
Martín Carranza e
Victoria Galardi (Argentina) e que o
"Prémio do Público" distinguiu dois
filmes: um americano,
QUEIMAR DEPOIS DE LER de
Joel e
Ethan Cohen, e outro europeu,
LEMON TREE do israelita
Eran Riklis.
Finalmente, a distinção da FIPRESC
(Federação Internacional da Imprensa
Cinematográfica) foi para o controverso
TIRO EN LA CABEZA de
Jaime Rosales e o já citado
RIO GELADO recebeu o prémio “Otra
Mirada” atribuído pela TVE.
Caiu assim o pano sobre um Festival pouco
entusiasmante, mas no qual, apesar de tudo,
havia matéria prima para um palmarés um
pouco mais rico.
Depois de enviar este texto, vou dar uma
última volta pela cidade e despedir-me de
alguns amigos.
Por volta da meia-noite, como diria
Tavernier, ainda teremos a “Cena de
Clausura” no Palácio de Miramar. Aí beberei
um copo à saúde dos amigos do “Grande Ecran”,
esperando compartilhar com eles,
presencialmente, a edição 57 deste Festival.
E amanhã, o regresso à pátria.
Bom cinema para todos.
De San Sebastián para a
FM-Media e o Grande Écran,
José Mário Bastos
(A difundir no
Grande Écran 540 de 2 de Outubro)