Hoje foi o último dia ainda com algum filmes
para ver. Amanhã, estará toda a gente à
espera da divulgação do
palmarés desta
56ª edição do Festival de San Sebastián
e, para além de alguma conferência de
imprensa durante a manhã, haverá ainda que
comprar um outro “recuerdo” e começar a
fazer as despedidas desta bela cidade basca
.
O desfile de filmes concorrentes na secção
oficial chegou ao fim com a passagem de
DREAMS (Sonhos) do
coreano
Kim Ki–duk, autor, nos últimos anos,
de algumas obras marcantes premiadas em
Berlim, Veneza e até San Sebastián. O autor
de
A ILHA,
FERRO 3,
PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO E...
PRIMAVERA e
O ARCO é, reconhecidamente, um
cineasta com uma obra muito pessoal, sempre
diferente, capaz do melhor o do pior. Com
DREAMS poder-se-á dizer, que desta
vez, a San Sebastián saiu a fava. O
argumento tem à partida, uma certa
originalidade: o que um homem sonha
(acidentes de automóvel, relações amorosas
ou outros factos), uma jovem mulher vive em
estado de sonambulismo. Os sonhos dela,
vive-os ele. A solução para evitar os
problemas originados por esta estranha
situação passa pela tentativa de os dois não
dormirem em simultâneo. Fazem-no por turnos
ou, em alternativa, amarrados com algemas um
ao outro. A partir daqui, o realizador
desenvolve uma trama extremamente confusa,
em que o espectador tem dificuldade em
distinguir os sonhos da realidade. DREAMS
é, assim, um filme falhado e que gorou
algumas expectativas já que
Kim Ki–duk era um dos nomes mais
sonantes entre os participantes na
competição “donostiarra”.
Por ironia, a conferência de imprensa
relativa a este filme teve lugar com a
presença física dos actores e com
Kim Ki–duk, retido em Seul devido a um
acidente de automóvel, a participar através
de video-conferência.
Depois de uma passagem com a família
Caramelo pelo Hotel Maria Cristina, onde nos
cruzámos à entrada com
Meryl Streep, segui para La Cepa, agora
já com gente suficiente para ocupar uma
mesa. A filha do Joaquín disse-nos que ele
tinha ido caçar para Cáceres, até meados da
próxima semana. Já não teremos este ano a
calorosa despedida de anos anteriores.
De seguida, uma corrida para o Kursaal, para
a conferência de imprensa de
Meryl Streep, o segundo Prémio Donostia
desta edição do Festival. Meia-hora antes já
a sala estava completamente cheia.
Irradiando simpatia e disponibilidade, a
actriz respondeu a inúmeras perguntas, sobre
a sua carreira como actriz, sobre os
realizadores com quem trabalhado, nunca
dando mostras de enfado ou de estar a
cumprir este número do programa apenas por
uma obrigação protocolar. Questionada sobre
as próximas eleições americanas, sempre foi
dizendo em tom muito humorado: “Se Obama
não ganhar compro um andar em San Sebastián
e venho viver para cá....”
Depois deste momento alto do Festival, a
minha última sessão:
THE BROTHERS BLOOM do
norte-americano
Rian Johnson, filme de encerramento
da secção oficial, exibido extra-concurso.
No elenco
Adrien Body (de
O PIANISTA),
Rachel Weisz (de
O FIEL JARDINEIRO) e
Mark Ruffalo (de
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA). No mundo
dos irmãos Bloom, tudo é uma ilusão e uma
mentira, nada é o que parece.
Especializados, ao longo de muitos anos de
trabalho em conjunto, na arte de roubar
fortunas aceitam fazer um último trabalho
para encerrar a sua carreira: atrair uma
bela e excêntrica herdeira a uma conspiração
que os levará à volta do mundo. O realizador
que se diz ,influenciado por
Terry Gilliam e
Fellini, ofereceu-nos um filme com
alguns momentos muito bem conseguidos mas
globalmente pouco homogéneo, sendo o
resultado final algo decepcionante.
Afinal a secção oficial acaba como começou.
Com um sentimento de alguma frustração,
espelhando a mediania que caracterizou toda
a selecção, da qual se destacam apenas três
ou quatro títulos:
FROZEN
RIVER
de
Courtney Hunt,
A CAIXA DE PANDORA de
Yesim Ustaoglu,
“O aniversário de Laila” de Rashid Masharawi,
e acima de todos eles,
STILL WALKING de
Hirokazu Kore-Eda, o nosso grande
favorito para a Concha de Ouro. Mas como os
júris de San Sebastián são,
tradicionalmente, pródigos em surpresas, não
ficaremos muito admirados se os prémios
forem para quaisquer outros.
De San Sebastián para a
FM-Media e o Grande Écran,
José Mário Bastos
(A difundir no
Grande Écran 540 de 2 de Outubro)