|
Originalmente rodado para televisão em 2006, chega
agora ao nosso país em versão para cinema, a ficção
britânica
MORTE DE UM PRESIDENTE, quinto trabalho
dirigido por
Gabriel Range, distinguido com 6 prémios e 1
nomeação, merecendo destaque o Prémio Fipresci, da
crítica internacional de cinema, no Festival de
Toronto de há dois anos.
Trabalho interessante, relata o assassinato do
Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, crime
que nunca foi resolvido, o que não impediu a prisão
de um muçulmano, exclusivamente com base numa
impressão digital, cujo apelo continuava sem ser
atendido um ano depois, mantendo-se o condenado no
corredor da morte de uma penitenciária.
Mesmo depois de se saber quem terá sido o assassino,
um veterano do exército norte-americano, com sérias
perturbações e o intuito de vingar a morte dum filho
enviado para a guerra, as provas apresentadas pelo
outro filho, nomeadamente uma carta deixada pelo pai
que se suicidou após o atentado, o sírio Jamal Abu
Zikri continuou detido e sem ver o seu recurso
atendido.
Nas 4 horas que se seguiram ao atentado, na
sequência de manifestações violentas contra o
Presidente, em que participaram 12 mil pessoas ao
longo do trajecto pelas ruas de Chicago e defronte
do edifício onde foi discursar, foram detidos cerca
de 400 suspeitos e o trabalho conjunto dos
investigadores forenses, do FBI e da CIA, não
descansaram, recorrendo a todos os métodos ao seu
alcance, sem grandes resultados práticos, diga-se.
Entre outras consequências, o modo como foram
conduzidas as investigações e as movimentações
políticas por detrás delas, levaram à demissão do
especialista forense encarregue do caso, como
protesto contra a impossibilidade de conduzir as
investigações como devia fazê-lo, e, a seguir à
entrevista concedida para o filme, também Robert H.
Maguire se demitiu de chefe do Chicago Field Office,
do FBI.
Um dos entrevistados do filme é a própria mulher de
Jamal que se manifesta radicalmente contra a
violência como meio de resolver conflitos e desde o
primeiro momento receia pela sorte do marido e da
família, evocando o sucedido com os muçulmanos
estabelecidos na América, após o 11 de Setembro.
Aliás, no decorrer do filme, um dos investigadores
diz que, por norma, em situações deste tipo, as
investigações começam por visar a comunidade
muçulmana, como seria de esperar, depois do
acontecido em 2001.
A condenação e surdez ao apelo de Jamal nem sequer
foram impedidas por duas falhas monstruosas na
instrução do processo: impossibilidade de o ligar a
qualquer grupo terrorista organizado e imperiosidade
do trabalho ter sido feito por um especialista, o
que ele seguramente não é.
Para esta arrojada ficção que tem o mérito de
desmontar e revelar os meandros da investigação e do
exercício do poder judicial nos Estados Unidos,
MORTE DE UM PRESIDENTE, de
Gabriel Range, 4 écrans, filme decididamente
a ver.
Falco Fernandes
(Difundido no
Grande Écran
537 de 11 de Setembro) |