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1638/2008

quinta

set.25

Redacção: Raquel Sofia, António Sousa, Raquel Silva, Ana Rita Madruga,  Isabel Santos e Falco Fernandes

 

4 écrans

 

 

Morte de um Presidente

de Gabriel Range

 

 

Momentos que se seguiram ao atentado

 

Originalmente rodado para televisão em 2006, chega agora ao nosso país em versão para cinema, a ficção britânica MORTE DE UM PRESIDENTE, quinto trabalho dirigido por Gabriel Range, distinguido com 6 prémios e 1 nomeação, merecendo destaque o Prémio Fipresci, da crítica internacional de cinema, no Festival de Toronto de há dois anos.

Trabalho interessante, relata o assassinato do Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, crime que nunca foi resolvido, o que não impediu a prisão de um muçulmano, exclusivamente com base numa impressão digital, cujo apelo continuava sem ser atendido um ano depois, mantendo-se o condenado no corredor da morte de uma penitenciária.

Mesmo depois de se saber quem terá sido o assassino, um veterano do exército norte-americano, com sérias perturbações e o intuito de vingar a morte dum filho enviado para a guerra, as provas apresentadas pelo outro filho, nomeadamente uma carta deixada pelo pai que se suicidou após o atentado, o sírio Jamal Abu Zikri continuou detido e sem ver o seu recurso atendido.

Nas 4 horas que se seguiram ao atentado, na sequência de manifestações violentas contra o Presidente, em que participaram 12 mil pessoas ao longo do trajecto pelas ruas de Chicago e defronte do edifício onde foi discursar, foram detidos cerca de 400 suspeitos e o trabalho conjunto dos investigadores forenses, do FBI e da CIA, não descansaram, recorrendo a todos os métodos ao seu alcance, sem grandes resultados práticos, diga-se.

Entre outras consequências, o modo como foram conduzidas as investigações e as movimentações políticas por detrás delas, levaram à demissão do especialista forense encarregue do caso, como protesto contra a impossibilidade de conduzir as investigações como devia fazê-lo, e, a seguir à entrevista concedida para o filme, também Robert H. Maguire se demitiu de chefe do Chicago Field Office, do FBI.

Um dos entrevistados do filme é a própria mulher de Jamal que se manifesta radicalmente contra a violência como meio de resolver conflitos e desde o primeiro momento receia pela sorte do marido e da família, evocando o sucedido com os muçulmanos estabelecidos na América, após o 11 de Setembro.

Aliás, no decorrer do filme, um dos investigadores diz que, por norma, em situações deste tipo, as investigações começam por visar a comunidade muçulmana, como seria de esperar, depois do acontecido em 2001.

A condenação e surdez ao apelo de Jamal nem sequer foram impedidas por duas falhas monstruosas na instrução do processo: impossibilidade de o ligar a qualquer grupo terrorista organizado e imperiosidade do trabalho ter sido feito por um especialista, o que ele seguramente não é.

Para esta arrojada ficção que tem o mérito de desmontar e revelar os meandros da investigação e do exercício do poder judicial nos Estados Unidos, MORTE DE UM PRESIDENTE, de Gabriel Range, 4 écrans, filme decididamente a ver.

Falco Fernandes

(Difundido no Grande Écran 537 de 11 de Setembro)

 

 

 

 

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