O Festival de San Sebastián habituou-nos,
desde há vários anos, a incluir na sua
principal secção competitiva, lado a lado
com trabalhos de realizadores de alguma
nomeada, filmes de cineastas em início de
carreira e obras oriundas do extremo oriente
e de alguns países habitualmente não
representados em certames deste tipo.
Este ano, já tivemos um pouco disso tudo e
hoje o ramalhete ficou completo com a
projecção de uma co-produção da Tunísia,
Palestina e Holanda:
EID MILAD LAILA (O
aniversário de Laila) de
Rashid Masharawi. O realizador
palestiniano conta-nos um dia na vida de um
juiz que vai exercendo a profissão de
taxista, com um carro emprestado pelo
cunhado, enquanto o governo não dispõe de
meios financeiros para o nomear. Seguimos o
percurso do protagonista durante todo o dia
do aniversário da filha, uma menina de sete
anos, começando pela visita diária ao
Ministério da Justiça. A nomeação como juiz
está ainda atrasada. Mudou o Ministro,
mudaram os funcionários, estão a mudar os
móveis e as cortinas. Ao que parece mudam
todas as semanas. Não há tempo nem recursos
para tratar de pôr a maquina judicial a
funcionar... Vemos, projectadas no écran um
conjunto de situações caricatas e
anacrónicas que se vivem num estado em
conflito permanente com os vizinhos
israelitas. Ainda que de forma caricatural,
Masharawi oferece-nos, com meia dúzia de
pinceladas, uma imagem interessante e
esclarecedora do dia-a-dia do seu país
natal. No final, como que por milagre ou
acaso do destino, constata que chega a casa
com tudo aquilo que planeava comprar para o
aniversário da filha. Uma mulher
esquecera-se de um bolo, no banco de trás do
táxi, numa corrida para o hospital; no
bolso, leva um colar que, após muita
insistência, comprou a um miúdo que estava a
mendigar num cruzamento; ao deixar o táxi
abandonado por momentos, alguém pensa que
ele faz parte da caravana de um casamento, e
decora-o a preceito com um grande ramo de
flores em cima do capot; no outro bolso leva
umas velas que lhe pediram para comprar para
as situações em que cortam a energia
eléctrica. E assim, de milagre em milagre,
se vai vivendo na Palestina.
Como este foi o dia do cinema basco, após a
conferência de imprensa de
O ANIVERSÁRIO DE LAILA lá fui
até ao Principal, para ver
LA CASA DE MI PADRE de
Gorka Merchán. Um filme escorreito,
bem interpretado (Emma
Suárez,
Carmelo Gómez,
Juan José Ballesta,
Verónica Echegui) e com uma
realização sem grandes artifícios mas segura
e eficaz. O tema, o de sempre. A história do
regresso à terra natal de um empresário e
jogador de pelota que, dez anos atrás foi
para a Argentina na sequência das ameaças
que foi recebendo. Regressa para acompanhar
os últimos dias de vida de um irmão já quase
moribundo. Com o regresso voltam a
insegurança e as ameaças. A divisão entre os
bascos dá-se até no seio das famílias. Em
muitas delas, há quem defenda a violência
para chegar à independência e há quem se lhe
oponha. O ódio existe dos dois lados do
conflito. O assassinato do protagonista é a
consequência, diria que natural, de uma
situação que infelizmente não é um argumento
de filme, mas o dia a dia de uma sociedade
que busca, há muitos anos, algo que parece
inatingível: o direito a viver em paz na sua
própria terra.
De seguida, mais um filme espanhol
apresentado a concurso:
CAMINO de
Javier Fesser. Obra destinada a
criar polémica, em particular junto dos
meios católicos mais conservadores,
CAMINO, baseado em factos reais,
aborda os últimos meses de vida de uma jovem
de onze anos, vítima de um tumor que a
conduzirá até à morte. A descoberta do amor
por um colega de escola (de nome Jesus) e a
forma como a mãe encara a doença da filha,
interpretando-a como uma dádiva divina, são
eixos fulcrais de uma trama de que
organizações da Igreja como a Opus Dei não
saem com boa imagem. Em particular, o
aproveitamento do caso para abrir as portas
a uma beatificação ou canonização de que a
“Obra” tanto precisa. Alternando o
fantástico e o real, CAMINO
é uma produção já de certa envergadura,
embora integre cenas perfeitamente
dispensáveis como as das intervenções
cirúrgicas a que a protagonista é sujeita.
Não nos parece que fosse necessário
sublinhar dessa forma o sofrimento como um
dom de Deus.
À saída, apenas trinta minutos até à próxima
sessão. O “Nagusia Lau” está em dia de
folga, mas “La Cepa” já está de novo a
funcionar. Lá encontro, para além do Joaquín,
a Fernanda Silva, a trabalhar com a
representante do cinema checo, com vista ao
próximo Festroia.
E para terminar o dia? Ainda perguntam?
OS NOVOS MONSTROS, de
Dino Risi,
Ettore Scola e
Mario Monicelli. Aí encontrei
Vittorio Gassman e
Ornella Muti, que não via há muito,
e
Alberto Sordi, com quem tenho estado
nos últimos dias...
De San Sebastián para a
FM-Media e o Grande Écran,
José Mário Bastos
(A difundir no
Grande Écran 540 de 2 de Outubro)