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1636/2008

quarta

set.24

Redacção: Raquel Sofia, António Sousa, Raquel Silva, Ana Rita Madruga,  Isabel Santos e Falco Fernandes

56º Donostia Zinemaldia

Festival de San Sebastián

18/27 de Setembro

 

Palestina

e Espanha

 

A equipa de O ANIVERSÁRIO DE LAILA,

vendo-se ao meio Rashid Masharawi

(foto de JMB)

 

O Festival de San Sebastián habituou-nos, desde há vários anos, a incluir na sua principal secção competitiva, lado a lado com trabalhos de realizadores de alguma nomeada, filmes de cineastas em início de carreira e obras oriundas do extremo oriente e de alguns países habitualmente não representados em certames deste tipo.

Este ano, já tivemos um pouco disso tudo e hoje o ramalhete ficou completo com a projecção de uma co-produção  da Tunísia, Palestina e Holanda: EID MILAD LAILA (O aniversário de Laila) de Rashid Masharawi. O realizador palestiniano conta-nos um dia na vida de um juiz que vai exercendo a profissão de taxista, com um carro emprestado pelo cunhado, enquanto o governo não dispõe de meios financeiros para o nomear. Seguimos o percurso do protagonista durante todo o dia do aniversário da filha, uma menina de sete anos, começando pela visita diária ao Ministério da Justiça. A nomeação como juiz está ainda atrasada. Mudou o Ministro, mudaram os funcionários, estão a mudar os móveis e as cortinas. Ao que parece mudam todas as semanas. Não há tempo nem recursos para tratar de pôr a maquina judicial a funcionar... Vemos, projectadas no écran um conjunto de situações caricatas e anacrónicas que se vivem num estado em conflito permanente com os vizinhos israelitas. Ainda que de forma caricatural, Masharawi oferece-nos, com meia dúzia de pinceladas, uma imagem interessante e esclarecedora do dia-a-dia do seu  país natal. No final, como que por milagre ou acaso do destino, constata que chega a casa com tudo aquilo que planeava comprar para o aniversário da filha. Uma mulher esquecera-se de um bolo, no banco de trás do táxi, numa corrida para o hospital; no bolso, leva um colar que, após muita insistência, comprou a um miúdo que estava a mendigar num cruzamento; ao deixar o táxi abandonado por momentos, alguém pensa que ele faz parte da caravana de um casamento, e decora-o a preceito com um grande ramo de flores em cima do capot; no outro bolso leva umas velas que lhe pediram para comprar para as situações em que cortam a energia eléctrica. E assim, de milagre em milagre, se vai vivendo na Palestina.

Como este foi o dia do cinema basco, após a conferência de imprensa de O ANIVERSÁRIO DE LAILA lá fui até ao Principal, para ver LA CASA DE MI PADRE de Gorka Merchán. Um filme escorreito, bem interpretado (Emma Suárez, Carmelo Gómez, Juan José Ballesta, Verónica Echegui) e com uma realização sem grandes artifícios mas segura e eficaz. O tema, o de sempre. A história do regresso à terra natal de um empresário e jogador de pelota que, dez anos atrás foi para a Argentina na sequência das ameaças que foi recebendo. Regressa para acompanhar os últimos dias de vida de um irmão já quase moribundo. Com  o regresso voltam a insegurança e as ameaças. A divisão entre os bascos dá-se até no seio das famílias. Em muitas delas, há quem defenda a violência para chegar à independência e há quem se lhe oponha. O ódio existe dos dois lados do conflito. O assassinato do protagonista é a consequência, diria que natural, de uma situação que infelizmente não é um argumento de filme, mas o dia a dia de uma sociedade que busca, há muitos anos, algo que parece inatingível: o direito a viver em paz na sua própria terra.

De seguida, mais um filme espanhol apresentado a concurso: CAMINO de Javier Fesser. Obra destinada a criar polémica, em particular junto dos meios católicos mais conservadores, CAMINO, baseado em factos reais, aborda os últimos meses de vida de uma jovem de onze anos, vítima de um tumor que a conduzirá até à morte. A descoberta do amor por um colega de escola (de nome Jesus) e a forma como a mãe encara a doença da filha, interpretando-a como uma dádiva  divina, são eixos fulcrais de uma trama de que organizações da Igreja como a Opus Dei não saem com boa imagem. Em particular, o aproveitamento do caso para abrir as portas a uma beatificação ou canonização de que a “Obra” tanto precisa. Alternando o fantástico e o real, CAMINO é uma produção já de certa envergadura, embora integre cenas perfeitamente dispensáveis como as das intervenções cirúrgicas a que a protagonista é sujeita. Não nos parece que fosse necessário sublinhar dessa forma o sofrimento como um dom de Deus. 

À saída, apenas trinta minutos até à próxima sessão. O “Nagusia Lau” está em dia de folga, mas “La Cepa” já está de novo a funcionar. Lá encontro, para além do Joaquín, a Fernanda Silva, a trabalhar com a representante do cinema checo, com vista ao próximo Festroia.

E para terminar o dia? Ainda perguntam? OS NOVOS MONSTROS, de Dino Risi, Ettore Scola e Mario Monicelli. Aí encontrei Vittorio Gassman e Ornella Muti, que não via há muito, e Alberto Sordi, com quem tenho estado nos últimos dias...

 

De San Sebastián para a FM-Media e o Grande Écran,

José Mário Bastos

(A difundir no Grande Écran 540 de 2 de Outubro)

 

 

 

 

A equipa de

CAMINO, com

o realizador

Javier Fesser

ao meio

 

Monicelli soma e

segue, desta vez com

a parceria no filme

OS NOVOS MONSTROS

(fotos de JMB)

 

 

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