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1636/2008

terça

set.23

Redacção: Raquel Sofia, António Sousa, Raquel Silva, Ana Rita Madruga,  Isabel Santos e Falco Fernandes

56º Donostia Zinemaldia

Festival de San Sebastián

18/27 de Setembro

 

 

 

LOUISE-MICHEL

trouxe humor a Donostia

 

Benoît Delépine e Gustave de Kervern,

na Conferência de Imprensa de LOUISE-MICHEL

(foto de JMB)

 

Início da segunda metade do Festival. A actividade cinéfila do dia começou com um filme completamente louco e subversivo, surrealista e anárquico. Segundo representante francês presente na competição: LOUISE-MICHEL da dupla Benoît Delépine / Gustave de Kervern. Após o súbito encerramento de uma fábrica, as trabalhadoras decidem utilizar as indemnizações a que têm direito num objectivo tão revolucionário como bizarro: contratar um assassino profissional para matar o patrão. A encarregada de gerir este processo é a mais louca das funcionárias que contrata um idiota, na verdadeira acepção do termo, para cumprir o pretendido. Numa estética que faz lembrar a banda desenhada e os filmes de Jeunet e Caro, LOUISE-MICHEL utiliza um tipo de humor pouco habitual, com uma grande dose de loucura e que não logrou obter grandes simpatias por parte do público do festival que, como temos referido em crónicas anteriores, continua a encher as salas em que se desenrola a mostra “donostiarra”.

De seguida o roteiro habitual, com uma passagem pela conferência de imprensa, na qual Delépine e Kervern continuaram com as suas excentricidades  ao oferecer um “jamón pata negra” ao jornalista que fizesse a pergunta mais inteligente. O prémio era tentador mas tinha que trabalhar... Por isso rumei para a sala de imprensa.

A meio da tarde, no Principal, CSNY/DÉJÁ VU do norte-americano Bernard Shakley. Depois de nos anos 70 se terem envolvido em campanhas contra a guerra do Vietname e nas lutas estudantis, Crosby, Stills, Nash e Young voltaram a juntar-se, quase 40 depois, para fazer uma tournée pelos Estados Unidos agora para se oporem ao beco sem saída criado pela administração Bush, ao desencadear a ocupação do Iraque. Um documento muito curioso que tem ainda o mérito de fazer recordar um dos grupos musicais mais importantes das últimas décadas do século passado.

E, finalmente, na secção oficial, um filme para mais tarde recordar e sem dúvida o mais forte candidato  à “Concha de Ouro”. Trata-se de ARUITEMO, ARUITEMO (Still Walking) do japonês Hirokazu Kore-Eda. Presente pela terceira vez na competição basca, o cineasta nipónico revela neste seu trabalho uma notável evolução para um cinema de grande qualidade estética, apreciável fluência narrativa e excelente direcção de actores, tudo isto ao serviço de um argumento de sua autoria que aborda de forma muito inteligente um interessante drama familiar. Kore-Eda situa a acção num dia de Verão, durante vinte e quatro horas, quando dois filhos já adultos, e respectivas famílias, visitam os seus velhos pais, um médico reformado muito metido consigo mesmo e uma dona de casa. Reúnem-se  para comemorar os quinze anos da morte de um irmão mais velho, vítima de um acidente na praia. Num registo que mistura, com grande mestria, o humor e a melancolia, o cineasta aborda os conflitos geracionais e as expectativas frustradas dos pais que ambicionavam outro futuro para os filhos. Muito bonito, foi o qualificativo mais ouvido no final da projecção deste filme, no qual alguns pretenderam ver influências de Ozu e de Naruse, de resto admitidas por Kore-Eda na conferência de imprensa que teve lugar após a projecção.

E porque era terça-feira, dia em que “La Cepa” está fechada fui mais uma vez ao “Nagusia Lau” e daí para o Príncipe. Monicelli está a tornar-se viciante. Foi com alguma pena que li, no jornal do Festival, que o senhor, com os seus 93 anos (quando nasceu já Oliveira andava na escola!...), regressou a casa porque foi vítima de um ataque de bronquite. E eu que viajei com ele no avião que me trouxe a San Sebastián, não lhe tirei uma simples fotografia.... Desta vez, OH! AMIGOS MEUS filme que já não via há alguns anos e que foi um projecto de Pietro Germi, que este não pôde dirigir devido a uma doença grave. Ugo Tognazzi, Philippe Noiret, Adolfo Celi, ... , um grupo de amigos, uns bem instalados na vida, outros não tanto, ocupam o seu tempo a preparar toda a espécie de partidas a quem lhes surja pela pela frente. Manifestam assim o seu desejo de viver e de afrontar a morte que um dia será inevitável. Um conjunto de cenas verdadeiramente antológicas, como aquela de irem para a estação ferroviária esbofetear, à partida dos comboios, os infelizes que se debruçam nas janelas. Inenarrável e inesquecível.

 

De San Sebastián para a FM-Media e o Grande Écran,

José Mário Bastos

(A difundir no Grande Écran 540 de 2 de Outubro)

 

 

 

 

Hirokazu Kore-Eda,

na Conferência

de Imprensa do

filme ARUITEMO,

ARUITEMO

 

Ao que parece,

continuam as visitas

ao "Nagusia Lau"...

(fotos de JMB)

 

 

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