Início da segunda metade do Festival. A
actividade cinéfila do dia começou com um
filme completamente louco e subversivo,
surrealista e anárquico. Segundo
representante francês presente na
competição:
LOUISE-MICHEL da dupla
Benoît Delépine /
Gustave de Kervern. Após o súbito
encerramento de uma fábrica, as
trabalhadoras decidem utilizar as
indemnizações a que têm direito num
objectivo tão revolucionário como bizarro:
contratar um assassino profissional para
matar o patrão. A encarregada de gerir este
processo é a mais louca das funcionárias que
contrata um idiota, na verdadeira acepção do
termo, para cumprir o pretendido. Numa
estética que faz lembrar a banda desenhada e
os filmes de
Jeunet e
Caro,
LOUISE-MICHEL utiliza um tipo de
humor pouco habitual, com uma grande dose de
loucura e que não logrou obter grandes
simpatias por parte do público do festival
que, como temos referido em crónicas
anteriores, continua a encher as salas em
que se desenrola a mostra “donostiarra”.
De seguida o roteiro habitual, com uma
passagem pela conferência de imprensa, na
qual
Delépine e
Kervern continuaram com as suas
excentricidades ao oferecer um “jamón pata
negra” ao jornalista que fizesse a pergunta
mais inteligente. O prémio era tentador mas
tinha que trabalhar... Por isso rumei para a
sala de imprensa.
A meio da tarde, no Principal,
CSNY/DÉJÁ VU do norte-americano
Bernard Shakley. Depois de nos anos
70 se terem envolvido em campanhas contra a
guerra do Vietname e nas lutas estudantis,
Crosby, Stills, Nash e Young voltaram a
juntar-se, quase 40 depois, para fazer uma
tournée pelos Estados Unidos agora para se
oporem ao beco sem saída criado pela
administração Bush, ao desencadear a
ocupação do Iraque. Um documento muito
curioso que tem ainda o mérito de fazer
recordar um dos grupos musicais mais
importantes das últimas décadas do século
passado.
E, finalmente, na secção oficial, um filme
para mais tarde recordar e sem dúvida o mais
forte candidato à “Concha de Ouro”.
Trata-se de
ARUITEMO, ARUITEMO (Still
Walking) do japonês
Hirokazu Kore-Eda. Presente pela
terceira vez na competição basca, o cineasta
nipónico revela neste seu trabalho uma
notável evolução para um cinema de grande
qualidade estética, apreciável fluência
narrativa e excelente direcção de actores,
tudo isto ao serviço de um argumento de sua
autoria que aborda de forma muito
inteligente um interessante drama familiar.
Kore-Eda situa a acção num dia de
Verão, durante vinte e quatro horas, quando
dois filhos já adultos, e respectivas
famílias, visitam os seus velhos pais, um
médico reformado muito metido consigo mesmo
e uma dona de casa. Reúnem-se para
comemorar os quinze anos da morte de um
irmão mais velho, vítima de um acidente na
praia. Num registo que mistura, com grande
mestria, o humor e a melancolia, o cineasta
aborda os conflitos geracionais e as
expectativas frustradas dos pais que
ambicionavam outro futuro para os filhos.
Muito bonito, foi o qualificativo mais
ouvido no final da projecção deste filme, no
qual alguns pretenderam ver influências de
Ozu e de
Naruse, de resto admitidas por
Kore-Eda na conferência de imprensa que teve
lugar após a projecção.
E porque era terça-feira, dia em que “La
Cepa” está fechada fui mais uma vez ao
“Nagusia Lau” e daí para o Príncipe.
Monicelli está a tornar-se viciante.
Foi com alguma pena que li, no jornal do
Festival, que o senhor, com os seus 93 anos
(quando nasceu já Oliveira andava na
escola!...), regressou a casa porque foi
vítima de um ataque de bronquite. E eu que
viajei com ele no avião que me trouxe a San
Sebastián, não lhe tirei uma simples
fotografia.... Desta vez,
OH! AMIGOS MEUS filme que já não
via há alguns anos e que foi um projecto de
Pietro Germi, que este não pôde
dirigir devido a uma doença grave.
Ugo Tognazzi,
Philippe Noiret,
Adolfo Celi, ... , um grupo de
amigos, uns bem instalados na vida, outros
não tanto, ocupam o seu tempo a preparar
toda a espécie de partidas a quem lhes surja
pela pela frente. Manifestam assim o seu
desejo de viver e de afrontar a morte que um
dia será inevitável. Um conjunto de cenas
verdadeiramente antológicas, como aquela de
irem para a estação ferroviária esbofetear,
à partida dos comboios, os infelizes que se
debruçam nas janelas. Inenarrável e
inesquecível.
De San Sebastián para a
FM-Media e o Grande Écran,
José Mário Bastos
(A difundir no
Grande Écran 540 de 2 de Outubro)