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1627/2008

segunda

set.22

Redacção: Raquel Sofia, António Sousa, Raquel Silva, Ana Rita Madruga,  Isabel Santos e Falco Fernandes

56º Donostia Zinemaldia

Festival de San Sebastián

18/27 de Setembro

 

 

Filme de Rosales

causa polémica

 

Conferência de Imprensa do filme TIRO EN LA CABEZA,

de Jaime Rosales, causador de polémica no festival

(foto de JMB)

 

O dia amanheceu cinzento, mas do ponto de vista cinematográfico trouxe, logo a abrir, uma boa surpresa pela mão da turca Yesim Ustaoglu.

Um parentesis para realçar o elevado número de películas realizados por mulheres nas várias secções do Festival.

PANDORANIN KUTUSU (A Caixa de Pandora)  relata o conjunto de vicissitudes que se abatem sobre três irmãos, na casa dos quarenta anos, que vivem em Istambul, a partir do momento em que recebem a notícia do desaparecimento da mãe, uma idosa que vive numa aldeia perdida nas montanhas. Encontrada a senhora, são confrontados com o facto de ela padecer da doença de Alzheimer. As situações de tensão são cada vez mais frequentes, face ao agravamento da doença, mas o filme mostra-nos também momentos de grande ternura e humanidade, em particular na relação da idosa  (magnífica interpretação da francesa Tsilla Chelton) com o seu neto que acaba por a levar de regresso à aldeia. O plano final, com a protagonista a perder-se na subida das montanhas, remete-nos inevitavelmente para essa obra incontornável da História do cinema que é A BALADA DE NARAYAMA, de Shohei Imamura, cineasta japonês do qual a realizadora admitiu poder ter sofrido alguma influência ainda que inconsciente, já que viu o filme há muitos anos. Este terá sido um dos trabalhos com maior qualidade, a diferentes níveis, até esta altura exibidos na competição.

No que respeita a “Pérolas”, este quinto dia da mostra “donostiarra” trouxe-nos o Prémio do Júri da secção “Un Certain Regard” do Festival de Cannes: TOKYO SONATA de Kiyoshi Kurosawa . Apesar do apelido, o realizador não tem qualquer parentesco com mestre Akira. Esta “sonata” pretende retratar alguns problemas emergentes na sociedade japonesa, com destaque para o desemprego, a partir das perturbações resultantes dessas dificuldades, sentidas por uma família aparentemente normal. O pai, que ocupa uma posição confortável numa empresa de um grupo internacional, é subitamente despedido, indo engrossar as filas da “sopa dos pobres” e dos centros de emprego, onde lhe sugerem apenas ocupações que ele considera não estarem à sua altura. Entretanto, sai todos os dias de casa como se fosse para a sua anterior ocupação, ocultando à mulher e ao filho a sua nova situação. Os colegas que passam pelo mesmo, comportam-se da mesma maneira. Alguns, até ao suicídio. Enquanto o filho mais velho decide alistar-se como voluntário estrangeiro no exército americano e o mais jovem gasta o dinheiro destinado às refeições a tomar na escola, em aulas particulares de piano (a sua grande paixão), a mãe finge não saber de toda esta situação e procura garantir a união da família. TOKYO SONATA é um retrato, em tons muito sombrios, de pelo menos uma parte da sociedade japonesa, feito num registo muito cáustico e com um discurso cinematográfico desenvolto e coerente.

De volta à competição, na secção oficial, a segunda película espanhola: de Jaime Rosales, TIRO EN LA CABEZA, filme de oitenta e cinco minutos, sem diálogos, e com um guião inspirado no assassinato ocorrido em Dezembro de 2007 em França, junto à fronteira com Espanha, no parque de estacionamento de um bar, de dois guardas civis vestidos à paisana. Filmado sempre a grande distância, com tele-objectivas, a película de Rosales segue demoradamente, quase em tempo real, um conjunto de atitudes e de gestos de um homem com uma aparência de total normalidade e que um dia, entra num carro com mais duas pessoas, cruza a fronteira e mata friamente os dois guardas após um encontro fortuito. Objecto fílmico dificilmente qualificável, TIRO EN LA CABEZA teve, como seria de esperar, reacções bastante díspares por parte do público aqui presente e suscitou as polémicas habituais: é pró-ETA, dizem uns, é contra a ETA, reclamam outros. O autor declarou entretanto que a sua intenção é, acima de tudo, tentar contribuir para a chegada a uma solução pacífica para o problema basco. De qualquer modo e não pondo em causa a importância desta obra, susceptível de promover a discussão e o debate em torno da principal questão que preocupa o povo basco, não se percebe muito bem a sua presença na principal secção do Festival.   De realçar ainda dois pequenos pormenores: primeiro, antes da projecção a Direcção do Festival fez ouvir uma declaração de repúdio pelos mais recentes atentados praticados pela ETA e de solidariedade com as vítimas e suas famílias; segundo, o filme tem a participação do Ministério da Cultura de Espanha e da Generalitat e Televisão da Catalunha. Não há referências a qualquer apoio por parte do Governo Basco. 

E depois de uma prova de fogo como esta, terminei o dia no quarto do hotel, escrevendo umas linhas para “O Primeiro de Janeiro”, jornal em nome do qual estou acreditado no Festival, para além desta colaboração com fm-media que faço com todo o gosto e amizade.

De San Sebastián para a FM-Media e o Grande Écran,

José Mário Bastos

(A difundir no Grande Écran 540 de 2 de Outubro)

 

 

 

 

Yesim Ustaoglu

e TsillaChelton,na

Conferência

de Imprensa do

filme PANDORANIN

KUTUSU

 

 

 

O realizador Jaime Rosales e Asun Arretxe,

actor principal do filme TIRO EN LA CABEZA

(fotos de JMB)

 

 

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