O dia amanheceu cinzento, mas do ponto de
vista cinematográfico trouxe, logo a abrir,
uma boa surpresa pela mão da turca
Yesim Ustaoglu.
Um parentesis para realçar o elevado número
de películas realizados por mulheres nas
várias secções do Festival.
PANDORANIN KUTUSU (A Caixa de
Pandora) relata o conjunto de
vicissitudes que se abatem sobre três
irmãos, na casa dos quarenta anos, que vivem
em Istambul, a partir do momento em que
recebem a notícia do desaparecimento da mãe,
uma idosa que vive numa aldeia perdida nas
montanhas. Encontrada a senhora, são
confrontados com o facto de ela padecer da
doença de Alzheimer. As situações de tensão
são cada vez mais frequentes, face ao
agravamento da doença, mas o filme
mostra-nos também momentos de grande ternura
e humanidade, em particular na relação da
idosa (magnífica interpretação da francesa
Tsilla Chelton) com o seu neto que
acaba por a levar de regresso à aldeia. O
plano final, com a protagonista a perder-se
na subida das montanhas, remete-nos
inevitavelmente para essa obra incontornável
da História do cinema que é
A BALADA DE NARAYAMA, de
Shohei Imamura, cineasta japonês do
qual a realizadora admitiu poder ter sofrido
alguma influência ainda que inconsciente, já
que viu o filme há muitos anos. Este terá
sido um dos trabalhos com maior qualidade, a
diferentes níveis, até esta altura exibidos
na competição.
No que respeita a “Pérolas”, este quinto dia
da mostra “donostiarra” trouxe-nos o Prémio
do Júri da secção “Un Certain Regard” do
Festival de Cannes:
TOKYO SONATA de
Kiyoshi Kurosawa . Apesar do
apelido, o realizador não tem qualquer
parentesco com mestre
Akira. Esta “sonata” pretende retratar
alguns problemas emergentes na sociedade
japonesa, com destaque para o desemprego, a
partir das perturbações resultantes dessas
dificuldades, sentidas por uma família
aparentemente normal. O pai, que ocupa uma
posição confortável numa empresa de um grupo
internacional, é subitamente despedido, indo
engrossar as filas da “sopa dos pobres” e
dos centros de emprego, onde lhe sugerem
apenas ocupações que ele considera não
estarem à sua altura. Entretanto, sai todos
os dias de casa como se fosse para a sua
anterior ocupação, ocultando à mulher e ao
filho a sua nova situação. Os colegas que
passam pelo mesmo, comportam-se da mesma
maneira. Alguns, até ao suicídio. Enquanto o
filho mais velho decide alistar-se como
voluntário estrangeiro no exército americano
e o mais jovem gasta o dinheiro destinado às
refeições a tomar na escola, em aulas
particulares de piano (a sua grande paixão),
a mãe finge não saber de toda esta situação
e procura garantir a união da família.
TOKYO SONATA é um retrato, em
tons muito sombrios, de pelo menos uma parte
da sociedade japonesa, feito num registo
muito cáustico e com um discurso
cinematográfico desenvolto e coerente.
De volta à competição, na secção oficial, a
segunda película espanhola: de
Jaime Rosales,
TIRO EN LA CABEZA, filme de
oitenta e cinco minutos, sem diálogos, e com
um guião inspirado no assassinato ocorrido
em Dezembro de 2007 em França, junto à
fronteira com Espanha, no parque de
estacionamento de um bar, de dois guardas
civis vestidos à paisana. Filmado sempre a
grande distância, com tele-objectivas, a
película de
Rosales segue demoradamente, quase
em tempo real, um conjunto de atitudes e de
gestos de um homem com uma aparência de
total normalidade e que um dia, entra num
carro com mais duas pessoas, cruza a
fronteira e mata friamente os dois guardas
após um encontro fortuito. Objecto fílmico
dificilmente qualificável,
TIRO EN LA CABEZA teve, como
seria de esperar, reacções bastante díspares
por parte do público aqui presente e
suscitou as polémicas habituais: é pró-ETA,
dizem uns, é contra a ETA, reclamam outros.
O autor declarou entretanto que a sua
intenção é, acima de tudo, tentar contribuir
para a chegada a uma solução pacífica para o
problema basco. De qualquer modo e não pondo
em causa a importância desta obra,
susceptível de promover a discussão e o
debate em torno da principal questão que
preocupa o povo basco, não se percebe muito
bem a sua presença na principal secção do
Festival. De realçar ainda dois pequenos
pormenores: primeiro, antes da projecção a
Direcção do Festival fez ouvir uma
declaração de repúdio pelos mais recentes
atentados praticados pela ETA e de
solidariedade com as vítimas e suas
famílias; segundo, o filme tem a
participação do Ministério da Cultura de
Espanha e da Generalitat e Televisão da
Catalunha. Não há referências a qualquer
apoio por parte do Governo Basco.
E depois de uma prova de fogo como esta,
terminei o dia no quarto do hotel,
escrevendo umas linhas para “O Primeiro de
Janeiro”, jornal em nome do qual estou
acreditado no Festival, para além desta
colaboração com fm-media que faço com todo o
gosto e amizade.
De San Sebastián para a
FM-Media e o Grande Écran,
José Mário Bastos
(A difundir no
Grande Écran 540 de 2 de Outubro)