A única presença norte-americana na
competição oficial abriu o nosso terceiro
dia de Festival. FROZEN
RIVER (Rio Gelado), da
realizadora
Courtney Hunt,
trata uma história com um grande fundo de
humanidade que tem como protagonista uma
mulher abandonada pelo marido e que, para
sustentar os seus dois filhos, se envolve
num esquema de entrada de imigrantes ilegais
nos Estados Unidos. Para tal, conta com a
cumplicidade de uma rapariga índia que vive
numa reserva que faz fronteira com o Canadá
e na qual as autoridades policiais não têm
jurisdição. Filmado numa zona de paisagens
frias e agrestes, esta é uma obra de grande
sensibilidade em que a solidariedade assume
o papel principal e que, provavelmente, só
foi possível por ser dirigida e interpretada
por mulheres. Até ao momento um dos pontos
mais relevantes do Festival.
Após algumas fotos na conferência de
imprensa de
FROZEN RIVER, de uma fugaz
passagem pelos Encontros Zabaltegi, e de um
encontro em pleno Boulevard com a Directora
do Festroia, Fernanda Silva (como é bom
falar português de vez em quando...), mais
uma “Pérola” no Principal. Desta vez,
BURN AFTER READING (Queimar
depois de ler), a recente incursão dos
irmãos
Cohen na comédia, que foi filme de
abertura no último Festival de Veneza. O
filme conta um elenco de luxo em que marcam
presença nomes como
George Clooney,
Frances MCDormand,
John Malkovich e
Brad Pitt, e relata a história de um
elemento da CIA que, quando chega ao quartel
general para uma reunião ultra-secreta,
recebe a notícia do seu despedimento.
Inconformado com a situação mete-se em casa
a escrever as suas memórias e refugia-se na
bebida. O CD com os seus textos chega
acidentalmente às mãos de um par de
funcionários de um ginásio que pretendendo
obter alguns dividendos com o achado o
procuram vender à Embaixada da Rússia. O
argumento burlesco, caricatura da forma de
actuar dos serviços de inteligência e das
relações entre as grandes potências,
propicia muitos momentos hilariantes, de um
humor cáustico mas também absurdo. Mas como
um filme não é um objecto isolado, e é
fatalmente visto tendo em conta o conjunto
da obra dos seus autores, acaba por ser um
objecto um tanto estranho e difícil
qualificação.
Ao fim da tarde e novamente na secção
oficial,
GENOVA do britânico
Michael Winterbottom, a história da
tentativa de um reinício de vida, em Itália,
de um professor universitário americano e
das suas jovens filhas, na sequência da
morte da mulher num acidente de automóvel
ocorrido quando com elas viajava. O pai tem
como anfitriã uma colega italiana que já
conhecia anteriormente, a filha mais velha
faz rapidamente amigos entre os jovens
genoveses, mas a mais nova vive obcecada
pela imagem da mãe e pelo sentimento de
culpa que tem pela sua morte. A competir
pela terceira vez em San Sebastián,
Winterbottom começa o seu relato com
as cenas do acidente, num registo muito
vivo, muito próximo do cinema de acção
norte-americano, para depois passar para as
deambulações pelas vielas de Génova, em
sucessivos ciclos narrativos, em que o
fantástico e o real vão alternando. Trabalho
razoável.
À saída do cinema, a escassos 20 metros do
Principal, divisei atrás de um balcão dois
dos veteranos de “La Cepa”. Daqueles que lá
estavam há mais de vinte anos. Trabalham
agora no “Nagusia Lau”, um outro lugar a
reter nas deambulações gastronómicas “donostiarras”.
Não se cansaram de perguntar por “los
otros portugueses” e em especial pelo “meu
irmão”. Julgo que se referiam ao
dentista-agricultor mais cinéfilo do nosso
país, Armando Caramelo.
Para retemperar forças, que já lá vai o
tempo da juventude e da capacidade de ver
muitos filmes de “índole cineclubista” (para
usar a expressão de um antigo porteiro do
“Carlos Alberto” para classificar o que
considerava uma “seca”), nada melhor do que
algo com selo de garantia. Por isso, fui até
uma das salas do “Príncipe” ver um magnífico
e inolvidável
Mario Monicelli,
UM HEROI DO NOSSO TEMPO (1955),
com um insuperável
Alberto Sordi, então em início de
carreira. Saí da sala reconfortado e pronto
para uma noite descansada.
De San Sebastián para a
FM-Media e o Grande Écran,
José Mário Bastos
(Difundido no
Grande Écran 539 de 25 de Setembro)