O clima em San Sebastián, para além da
parada de estrelas de diversas grandezas,
continua pouco entusiasmante. Falo, é claro,
de cinema. Já a “playa de la Concha”
continua muito bem frequentada por todos
aqueles que se dispõem a gozar o calor deste
sol de fim de Verão.
Quanto à principal secção competitiva do
Festival, este foi mais um dia que não deixa
saudades. Para começar, do francês
Christophe Honoré,
LA BELLE PERSONNE, transposição
para um colégio parisiense dos nossos dias,
dos amores palacianos da corte francesa que
inspiraram o romance “A Princesa de Clèves”
da
Madame de Lafayette. O resultado é uma
obra desequilibrada e entediante. Os
valores, as aspirações e o modo de estar dos
jovens de hoje, retratados no filme, não têm
qualquer paralelo com as paixões exacerbadas
do texto romanesco e o que ressalta deste
trabalho é um conjunto de situações
grotescas, desligadas, sem picos de emoção e
incapazes de suscitar o interesse do
espectador. Muito fraca a primeira presença
do cinema francês na selecção deste ano.
Mas para mostrar que daquelas paragens se
pode sempre esperar objectos de outra
qualidade, de seguida, uma “perolazinha” no
“Principal”:
L'HEURE D'ÉTÉ, de
Olivier Assayas, bela abordagem da
dificuldade de relacionamento entre três
irmãos que se vêem confrontados com a
situação de terem que se desfazer e repartir
um valioso património de família, após a
morte repentina da mãe. O filme passa-se
quase todo numa bela mansão, rodeada por uma
quinta, onde os mais jovens se dedicam a
todo o género de brincadeiras, afinal
similares às que os seus pais viveram nos
mesmos locais.
L'HEURE D'ÉTÉ é assim, também,
uma história de memórias e de nostalgia por
um tempo que não voltará mais. Excelente
registo, na linha de algum do melhor cinema
francês.
No regresso à secção oficial o primeiro
filme espanhol em competição,
EL PATIO DE MI CÁRCEL (O
pátio da minha prisão), primeira
longa-metragem de
Belén Macias. É a história de um
conjunto de presidiárias, de diferentes
origens e personalidades, que vêem a sua
vida na prisão modificar-se com a chegada de
uma nova funcionária prisional que tem uma
concepção pouco habitual do que deve ser um
espaço de reclusão. A criação de um grupo de
teatro é uma das suas ideias que irá alterar
comportamentos, anseios e perspectivas de
futuro para as reclusas. Os sucessos e
desaires deste processo, os problemas
levantados pelas hierarquias e pelas outras
guardas, são os temas fundamentais deste
filme, muito bem intencionado, protagonizado
por um numeroso grupo de actrizes bem
adaptadas aos papéis que desempenham.
Razoável, mas apenas isso.
Para completar a jornada cinéfila, outro
Monicelli:
DONATELLA (1956) com uma muito
jovem
Elsa Martinelli (futura heroína de
HATARI!, de
Howard Hawks) e um admirável
Aldo Fabrizi, aqui num papel cómico,
de pleno contraste com o que encontrámos,
por exemplo, no do padre de
ROMA, CIDADE ABERTA, de
Roberto Rossellini (1945).
Depois das fitas, cerca da meia-noite,
uma passagem por “La Cepa”. Finalmente, o
Joaquín Pollos e aquele repasto de
boas-vindas a que estamos habituados: jamon,
hongos, salomillo, patxaran e a simpatia
habitual... Quem não conhece não sabe o que
perde.
De San Sebastián para a
FM-Media e o Grande Écran,
José Mário Bastos
(A difundir no
Grande Écran 540 de 2 de Outubro)