A abrir o segundo dia cinéfilo, com a sala
grande do Kursaal completamente cheia, o que
equivale a falar em cerca de duas mil
pessoas, um dos filmes mais aguardados do
Festival, exibido extra-concurso na secção
oficial:
THE BOY IN THE STIPPED PYJAMAS (O
Rapaz de Pijama às Riscas), realizado
pelo britânico
Mark Herman, cineasta que há alguns
anos nos surpreendeu com o excelente
OS VIRTUOSOS, empolgante libelo
contra a política da senhora Tatcher,
centrado numa localidade mineira inglesa em
grande crise social e na sua banda de
música.
Desta feita, o tema é a descoberta trágica
do holocausto promovido pelos nazis, através
dos olhos de um rapaz, filho de um oficial
alemão responsável por um campo de
extermínio. A família do militar instala-se
numa grande mansão, paredes-meias com um
campo de concentração que o miúdo avista da
janela e julga ser uma quinta ocupada por
uma gente um tanto estranha, já que todos se
vestem com “pijama às riscas”.
Das saídas furtivas até junto do campo,
resultará o nascimento de uma amizade com um
rapaz judeu que todos os dias se acerca da
vedação e em lados opostos da rede ensaiam
jogos e brincadeiras.
Afinal o menino judeu é a única criança que
conhece na sua nova casa, a cumplicidade
entre os dois jovens cresce até ao dia em
que o filho do oficial consegue entrar no
campo, veste também um “pijama” e vai com o
amigo à procura do pai deste, entretanto
“desaparecido”.
A tragédia consuma-se quando os dois ficam
fatalmente encurralados no turbilhão de um
grupo de judeus empurrados a caminho do
crematório. Com este argumento que é uma
adaptação do best-seller homónimo de
John Boyne,
Mark Herman poderia ter feito um
grande filme.
Mas não fez e, pelo contrário, mostra-nos um
trabalho pouco conseguido, muito britânico,
em que os nazis alemães são demasiado
ingleses e em que a interpretação de
David Thewlis, no papel do oficial
alemão, não é nada convincente.
Depois de uma passagem pelos Encontros
Zabaltegi onde, entre outros, estava o
cineasta francês
Philippe Garrel que na edição do ano
passado foi aqui objecto de um ciclo
monográfico e que este ano nos trouxe
LA FRONTIÈRE DE L’AUBE, segui
para o Principal.
Secção Zabaltegi, Pérolas de Outros
Festivais, não será propriamente uma pérola,
mas é por certo muito interessante o filme
israelita de
Eran Riklis,
ETZ LIMON (Os Limoeiros),
ao que nos dizem já comprado para exibição
em Portugal: um pomar de limoeiros na
fronteira entre Israel e os territórios
ocupados, num local para onde vai viver um
ministro israelita, converte-se num caso de
segurança para o Estado Judeu e dá origem a
um processo judicial com uma exposição
mediática que corre todo o mundo. O filme é
uma bela metáfora sobre as dificuldades da
coexistência, em territórios contíguos, de
povos com oposições e rivalidades
ancestrais.
No regresso aos filmes em competição na
secção oficial, o dia continuou com a
apresentação de
DEN DU FRYGTER (Não me
temais) do dinamarquês
Kristian Levring, um dos nomes do
movimento “Dogma” criado por
Lars von Trier. Obra perturbadora
que se desenvolve à volta das alterações
comportamentais de um homem que se oferece
para participar nos ensaios clínicos de um
novo medicamento, o filme evolui,
progressivamente, para cenas de grande
tensão (no seio familiar e não só), e
inscreve-se num tipo de cinema muito comum
hoje em dia nos países nórdicos, e que
transmite, de algum modo, o retrato de
sociedades pouco equilibradas e imbuídas de
uma violência latente que, de quando em vez,
irrompe de forma imparável.
Passagem por “La Cepa”, o Joaquín
continua ausente. Não conheço ninguém.
Para o final da jornada, a passagem da
presença portuguesa nesta edição do
Festival.
ENTRE OS DEDOS, de
Tiago Guedes e
Frederico Serra, baseado em
argumento de
Rodrigo Guedes de Carvalho.
Excelentes interpretações, com destaque para
Isabel Abreu, dão corpo a uma
história muito dura, da vida de uma família
com poucos recursos, numa zona suburbana da
capital. Filmada a preto e branco, muitas
vezes com a câmara à mão, num registo que
tem algo de neo-realista,
ENTRE OS DEDOS é uma obra de
grande dignidade, embora peque por querer
abordar demasiados dramas quotidianos de uma
só vez: o desemprego, as tensões familiares,
os traumas provocados pela guerra colonial,
os conflitos raciais nos bairros suburbanos,
…
De San Sebastián para a
FM-Media e o Grande Écran,
José Mário Bastos
(Difundido no
Grande Écran 539 de 25 de Setembro)