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1620/2008

sexta

set.19

Redacção: Raquel Sofia, António Sousa, Raquel Silva, Ana Rita Madruga,  Isabel Santos e Falco Fernandes

56º Donostia Zinemaldia

Festival de San Sebastián

18/27 de Setembro

 

 

Digna presença

portuguesa

 

Conferência de Imprensa de DEN DU FRYGTER

(Não me temais), de Kristian Levring, do movimento "Dogma"

 

(foto de JMB)

 

A abrir o segundo dia cinéfilo, com a sala grande do Kursaal completamente cheia, o que equivale a falar em cerca de duas mil pessoas, um dos filmes mais aguardados do Festival, exibido extra-concurso na secção oficial: THE BOY IN THE STIPPED PYJAMAS (O Rapaz de Pijama às Riscas), realizado pelo britânico Mark Herman, cineasta que há alguns anos nos surpreendeu com o excelente OS VIRTUOSOS, empolgante libelo contra a política da senhora Tatcher, centrado numa localidade mineira inglesa em grande crise social e na sua banda de música.

Desta feita, o tema é a descoberta trágica do holocausto promovido pelos nazis, através dos olhos de um rapaz, filho de um oficial alemão responsável por um campo de extermínio. A família do militar instala-se numa grande mansão, paredes-meias com um campo de concentração que o miúdo avista da janela e julga ser uma quinta ocupada por uma gente um tanto estranha, já que todos se vestem com “pijama às riscas”.

Das saídas furtivas até junto do campo, resultará o nascimento de uma amizade com um rapaz judeu que todos os dias se acerca da vedação e em lados opostos da rede ensaiam jogos e brincadeiras.

Afinal o menino judeu é a única criança que conhece na sua nova casa, a cumplicidade entre os dois jovens cresce até ao dia em que o filho do oficial  consegue entrar no campo, veste também um “pijama” e vai com o amigo à procura do pai deste, entretanto “desaparecido”.

A tragédia consuma-se quando os dois ficam fatalmente encurralados no turbilhão de um grupo de judeus empurrados a caminho do crematório. Com este argumento que é uma adaptação do best-seller homónimo de John Boyne, Mark Herman poderia ter feito um grande filme.

Mas não fez e, pelo contrário, mostra-nos um trabalho pouco conseguido, muito britânico, em que os nazis alemães são demasiado ingleses e em que a interpretação de David Thewlis, no papel do oficial alemão, não é nada convincente.

Depois de uma passagem pelos Encontros Zabaltegi onde, entre outros, estava o cineasta francês Philippe Garrel que na edição do ano passado foi aqui objecto de um ciclo monográfico e que este ano nos trouxe LA FRONTIÈRE DE L’AUBE, segui para o Principal.

Secção Zabaltegi, Pérolas de Outros Festivais, não será propriamente uma pérola, mas é por certo muito interessante o filme israelita de Eran Riklis, ETZ LIMON (Os Limoeiros), ao que nos dizem já comprado para exibição em Portugal: um pomar de limoeiros na fronteira entre Israel e os territórios ocupados, num local para onde vai viver um ministro israelita, converte-se num caso de segurança para o Estado Judeu e dá origem a um processo judicial com uma exposição mediática que corre todo o mundo. O filme é uma bela metáfora sobre as dificuldades da coexistência, em territórios contíguos, de povos com oposições e rivalidades ancestrais.

No regresso aos filmes em competição na secção oficial, o dia continuou com a apresentação de DEN DU FRYGTER (Não me temais) do dinamarquês Kristian Levring, um dos nomes do movimento “Dogma” criado por Lars von Trier. Obra perturbadora que se desenvolve à volta das alterações comportamentais de um homem que se oferece para participar nos ensaios clínicos de um novo medicamento, o filme evolui, progressivamente, para cenas de grande tensão (no seio familiar e não só), e inscreve-se num tipo de cinema muito comum hoje em dia nos países nórdicos, e que transmite, de algum modo, o retrato de sociedades pouco equilibradas e imbuídas de uma violência latente que, de quando em vez, irrompe de forma imparável.

Passagem por “La Cepa”, o Joaquín continua ausente. Não conheço ninguém.

Para o final da jornada, a passagem da presença portuguesa nesta edição do Festival. ENTRE OS DEDOS, de Tiago Guedes e Frederico Serra, baseado em argumento de Rodrigo Guedes de Carvalho.

Excelentes interpretações, com destaque para Isabel Abreu, dão corpo a uma história muito dura, da vida de uma família com poucos recursos, numa zona suburbana da capital. Filmada a preto e branco, muitas vezes com a câmara à mão, num registo que tem algo de neo-realista, ENTRE OS DEDOS é uma obra de grande dignidade, embora peque por querer abordar demasiados dramas quotidianos de uma só vez: o desemprego, as tensões familiares, os traumas provocados pela guerra colonial, os conflitos raciais nos bairros suburbanos, …

De San Sebastián para a FM-Media e o Grande Écran,

José Mário Bastos

(Difundido no Grande Écran 539 de 25 de Setembro)

 

 

 

 

Conferência de

Imprensa do filme

THE BOY IN THE

STIPPED PYJAMAS

de Mark Herman,

com Davd Thewlis

 

 

Aspecto dos

Encontros Zabaltegi

(fotos de JMB)

 

 

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