Choveu durante a noite, saí cedo da pensão
porque o dia prometia ser longo e cheio de
estrelas, após o pequeno almoço no “Reloj
Berri”, marchei para o Kursaal.
Nada das confusões dos anos anteriores, os
serviços de acolhimento do Festival já
tinham estado abertos na véspera e, após o
levantamento da documentação de acreditação
e do reconhecimento dos locais que irei
frequentar durante o Festival (sala de
imprensa, conferências de imprensa, etc.)
fui para a fila de entrada na primeira
sessão da secção oficial:
THE OTHER MAN, de
Richard Eyre, com
Liam Neeson e
Antonio Banderas.
Como de costume a enorme sala do Kursaal 1
quase encheu, apesar de serem onze da manhã
de uma quinta-feira, agora já com o sol
brilhando sobre a cidade.
Primeiro filme do Festival, primeiro “flop”,
uma história de infidelidade e do confronto
entre dois homens que amam a mesma mulher.
Apesar do Prémio “Donostia” que no dia
seguinte receberia das mãos de
Pedro Almodóvar,
Banderas não está nada melhor que
Liam Neeson.
Enfim, um argumento banal, uma realização
quase que televisiva e um começo pouco
auspicioso para 56ª edição do Festival.
Após umas fotos aos artistas, apressei-me a
tratar da logística: a mudança da pensão
para o Hotel San Sebastián que o Festival me
destinou, tudo isto a correr, porque às 3 da
tarde havia
Woody Allen no Principal:
VICKY CRISTINA BARCELONA,
Javier Bardem,
Penélope Cruz,
Scarlett Johansson e
Rebecca Hall, numa história centrada
em duas jovens americanas que passam as
férias de Verão em Barcelona.
Jogos de amor com um
Bardem no papel de um “macho
latino”, casado (ou ex-casado) com uma
espanhola temperamental e, por vezes,
violenta.
Barcelona e Oviedo ficaram bem na
fotografia, mas no filme só muito fugazmente
perpassa o génio do cineasta nova-iorquino.
Acabada a projecção uma corrida para o
Kursaal onde às 5 horas estariam
Allen,
Bardem e
Rebbeca.
O realizador quase ofuscou os actores,
tornando-se o centro de todas as atenções,
por entre declarações de elogio ao cinema e
actores espanhóis e à capital da Catalunha.
Não faltou também a manifestação de apoio a
Obama, tal como tinha acontecido com
Banderas durante a manhã, apesar de
este não ter direito de voto nas eleições
americanas.
Ao fim da tarde o primeiro filme em
competição na secção oficial:
ASBE DU-PA, (O Cavalo de duas
pernas), da iraniana
Samira Makhmalbaf, de que conhecemos
em Portugal
O QUADRO NEGRO, entre outros.
Tal como os outros trabalhos que conhecemos
deste clã, que integra vários elementos da
família (recorde-se apenas que o pai,
Mosen, é o autor de
GABBEH e
KANDAHAR e que a irmã
Hana ganhou aqui, no ano passado, o
prémio especial do Júri com
BUDA EXPLODIU COM VERGONHA) este
é um filme que diríamos ser “cinema em
estado puro”, com uma construção de
grande simplicidade, sem quaisquer
artifícios, e susceptível de criar algum
fascínio no espectador. A história gira à
volta de um rapaz, intelectualmente
diminuído, que é contratado para carregar às
costas, até à escola, um outro miúdo que
perdeu as pernas no rebentamento de uma
mina.
Totalmente rodado no Afeganistão, o filme
aborda a crescente exploração a que o
protagonista é submetido, até se transformar
num verdadeiro animal de carga, numa
metáfora do que pode o levar até às ultimas
consequências o domínio de um ser humano
sobre outro.
O melhor do primeiro dia de Festival estava
reservado para a sessão das 22 horas no
Principal,
EL OLVIDO, de
Heddy Honigmann, exibido na secção
“Horizontes Latinos”, um excelente
documentário da realizadora holandesa que,
depois de em edição anterior ter aqui
mostrado uma bela reflexão sobre a vida e a
morte a propósito do famoso cemitério
parisiense de Père Lacchaise, nos deu, desta
feita, o retrato infelizmente trágico da
política peruana das últimas décadas e dos
expedientes a que os mais pobres recorrem na
sua luta pela sobrevivência.
De San Sebastián para a
FM-Media e o Grande Écran,
José Mário Bastos
(Difundido no
Grande Écran 539 de 25 de Setembro)