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1619/2008

quinta

set.18

Redacção: Raquel Sofia, António Sousa, Raquel Silva, Ana Rita Madruga,  Isabel Santos e Falco Fernandes

56º Donostia Zinemaldia

Festival de San Sebastián

18/27 de Setembro

 

 

Alguma parra,

mas pouca uva

 

Samira Makhmalbaf, filha de Mosen e irmã de Hana,

este ano presente com O CAVALO DE DUAS PERNAS

(foto de JMB)

 

Choveu durante a noite, saí cedo da pensão porque o dia prometia ser longo e cheio de estrelas, após o pequeno almoço no “Reloj Berri”, marchei para o Kursaal.

Nada das confusões dos anos anteriores, os serviços de acolhimento do Festival já tinham estado abertos na véspera e, após o levantamento da documentação de acreditação e do reconhecimento dos locais que irei frequentar durante o Festival (sala de imprensa, conferências de imprensa, etc.) fui para a fila de entrada na primeira sessão da secção oficial: THE OTHER MAN, de Richard Eyre, com Liam Neeson e Antonio Banderas.

Como de costume a enorme sala do Kursaal 1 quase encheu, apesar de serem onze da manhã de uma quinta-feira, agora já com o sol brilhando sobre a cidade.

Primeiro filme do Festival, primeiro “flop”, uma história de infidelidade e do confronto entre dois homens que amam a mesma mulher.

Apesar do Prémio “Donostia” que no dia seguinte receberia das mãos de Pedro Almodóvar, Banderas não está nada melhor que Liam Neeson.

Enfim, um argumento banal, uma realização quase que televisiva e um começo pouco auspicioso para 56ª edição do Festival.

Após umas fotos aos artistas, apressei-me a tratar da logística: a mudança da pensão para o Hotel San Sebastián que o Festival me destinou, tudo isto a correr, porque às 3 da tarde havia Woody Allen no Principal: VICKY CRISTINA BARCELONA, Javier Bardem, Penélope Cruz, Scarlett Johansson e Rebecca Hall, numa história centrada em duas jovens americanas que passam as férias de Verão em Barcelona.

Jogos de amor com um Bardem no papel de um “macho latino”, casado (ou ex-casado) com uma espanhola temperamental e, por vezes, violenta.

Barcelona e Oviedo ficaram bem na fotografia, mas no filme só muito fugazmente perpassa o génio do cineasta nova-iorquino.

Acabada a projecção uma corrida para o Kursaal onde às 5 horas estariam Allen, Bardem e Rebbeca.

O realizador quase ofuscou os actores, tornando-se o centro de todas as atenções, por entre declarações de elogio ao cinema e actores espanhóis e à capital da Catalunha.

Não faltou também a manifestação de apoio a Obama, tal como tinha acontecido com Banderas durante a manhã, apesar de este não ter direito de voto nas eleições americanas.

Ao fim da tarde o primeiro filme em competição na secção oficial: ASBE DU-PA, (O Cavalo de duas pernas), da iraniana Samira Makhmalbaf, de que conhecemos em Portugal O QUADRO NEGRO, entre outros.

Tal como os outros trabalhos que conhecemos deste clã, que integra vários elementos da família (recorde-se apenas que o pai, Mosen, é o autor de GABBEH e KANDAHAR e que a irmã Hana ganhou aqui, no ano passado, o prémio especial do Júri com BUDA EXPLODIU COM VERGONHA) este é um filme que diríamos ser “cinema em estado puro”, com uma construção de grande simplicidade, sem quaisquer artifícios, e susceptível de criar algum fascínio no espectador. A história gira à volta de um rapaz, intelectualmente diminuído, que é contratado para carregar às costas, até à escola, um outro miúdo que perdeu as pernas no rebentamento de uma mina.

Totalmente rodado no Afeganistão, o filme aborda a crescente exploração a que o protagonista é submetido, até se transformar num verdadeiro animal de carga, numa metáfora do que pode o levar até às ultimas consequências o domínio de um ser humano sobre outro.

O melhor do primeiro dia de Festival estava reservado para a sessão das 22 horas no Principal, EL OLVIDO, de Heddy Honigmann, exibido na secção “Horizontes Latinos”, um excelente documentário da realizadora holandesa que, depois de em edição anterior ter aqui mostrado uma bela reflexão sobre a vida e a morte a propósito do famoso cemitério parisiense de Père Lacchaise, nos deu, desta feita, o retrato infelizmente trágico da política peruana das últimas décadas e dos expedientes a que os mais pobres recorrem na sua luta pela sobrevivência.

De San Sebastián para a FM-Media e o Grande Écran,

José Mário Bastos

(Difundido no Grande Écran 539 de 25 de Setembro)

 

 

Antonio Banderas e Richard Eyre, na Conferência de Imprensa do filme THE OTHER MAN (foto de JMB)

 

Conferência de

Imprensa de

Rebecca Hall

e Woody Allen,

do filme Vicky

Cristina Barcelona

(foto de JMB)

 

 

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