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1473/2006

quinta

dez.14

Redacção: Raquel Sofia, António Sousa, Raquel Silva, Ana Rita Madruga Isabel Santos e Falco Fernandes

 

5 écrans

 

 

BABEL

de Alejandro González

Iñárritu (em antestreia)

 

(difundido no Grande Écran 515, de 14 de Dezembro)

 

O título Babel, escolhido pelo realizador mexicano Alejandro González Iñárritu para o seu mais recente filme, distinguido no Festival de Cannes com a Palma de Prata para realização, exibido recentemente no Festival de Toronto com a presença de Brad Pitt e integrado na secção Zabaltegi - Pérolas de outros Festivais, do Festival de San Sebastián, tem um sentido muito mais profundo do que a referência às muitas línguas em que é falado: marroquino, inglês, japonês, mexicano e linguagem gestual.

Trata-se, mais precisamente, de uma referência explícita a este mundo louco em que vivemos, esta aldeia global aproximada por sofisticadas telecomunicações e em que não conseguimos, muito simplesmente, fazer-nos entender ou sequer ouvir pela pessoa com quem estamos a falar.

Desobedecendo intencionalmente às regras clássicas de unidade espaço/tempo, construindo um discurso que lhe é peculiar e que já nos foi dado apreciar em filmes anteriores, como AMOR CÃO ou 21 GRAMAS, Iñárritu logra potenciar de uma forma empolgante a tensão que mantém a um nível crítico ao longo de todo o filme, deixando o espectador longos minutos suspenso do curso de uma história interrompida, fazendo-o a intervalos regulares e de forma equilibrada.

Também retoma a narrativa de três histórias em simultâneo, três situações que se amparam mutuamente entre si, por vezes desequilibrando-se mas retomando um curso "normal" mais adiante no filme. A novidade resulta da saída de uma cidade (o México) ou mesmo de um país (os Estados Unidos) para viver um drama de ligações mundiais, com um pé em Marrocos, outro na fronteira entre os Estados Unidos e o México e um terceiro em Tóquio.

O que realmente dói neste BABEL, sofrido por Richard e Susan algures no deserto, pelos seus filhos e empregada Amelia a milhares de quilómetros de distância e por Yasujiro do outro lado do globo, é a confessa inutilidade de todos conseguirem comunicar entre si, se necessário, tornarem-se notícia nas cadeias de televisão mundial quase em tempo real, chegarem ao departamento de Estado norte-americano, mas isso em nada contribuir para interromper a trágica cadeia de acontecimentos que envolve todos.

Como Brad Pitt referiu em Toronto, trata-se de um filme sobre a paranóia, os juízos precipitados, os erros que a cada passo cometemos, por agirmos em função de uma ideia feita, de um preconceito, de uma suspeita. Isso que nos pode causar grandes problemas nas relações pessoais, desencadeia muitas vezes as tragédias entre grupos, comunidades, povos e nações, tendo-se tornado numa das sombras negras deste novo século e milénio.

Excelentes interpretações de Brad Pitt no papel do americano Richard e de Cate Blanchett no de sua mulher Susan, muito bem os muito jovens actores  Elle Fanning (irmã de Dakota) no papel da filha do casal Debbie e de Nathan Gamble no do filho Mike, magnífica a empregada Amelia a cargo de Adriana Barraza e Santiago, entregue a Gael García Bernal, de eleição a interpretação de Rinko Kikuchi, no papel da adolescente japonesa surda-muda Chieko.

Para BABEL, de Alejandro González Iñárritu, com Brad Pitt, Cate Blanchet, Elle Fanning, Gael Garcia Bernal e Rinko Kikuchi, 5 écrans, filme decididamente a não perder.

Falco Fernandes

 

 

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