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1072/2005

quinta

dez.29

Redacção: Raquel Sofia, António Sousa, Raquel Silva Isabel Santos e Falco Fernandes

   

4 écrans

 

O PESADELO

DE DARWIN

de Hubert Sauper

 

 

(difundido no Grande Écran 466, de 29 de Dezembro)

 

Mesmo continuando a surgir nos nossos écrans espaçadamente, os documentários lá vão chegando ao circuito comercial e esta semana estreiam dois, um dos quais O PESADELO DE DARWIN, de Hubert Sauper, que tivemos oportunidade de ver no primeiro dia do Donostia 2004.

O que leva russos, europeus ocidentais e paquistaneses, entre outros, a demandarem uma empobrecida região da Tanzânia, visitada insistentemente por aviões de grande porte que carregam pesadas cargas entre o norte europeu e o sul africano, mercadorias que são transportadas com o mesmo empenho nos dois sentidos?

Nada mais nada menos do que a profusão esmagadora de exemplares de perca do Nilo, espécie introduzida experimentalmente no Lago Vitória e responsável pelo desaparecimento das espécies autóctones, mas alvo da cobiça da Europa desenvolvida, como alimento da sua indústria de pescado.

Em condições sub-humanas, a população de Mwamba vê chegar e partir ao improvisado aeroporto local os pesados cargos da ex-União Soviética, carregando peixe rumo ao norte, mas abastecendo de armas intermináveis conflitos, como os que se desenrolam no Ruanda, no Burundi ou no Sudão.

Em dada altura do filme, o piloto de um dos aviões conta o que classifica como uma sua "pequena história" e relata o voo em que levou dois tanques para Angola, voando depois rumo à África do Sul, de onde regressou à Europa com um carregamento de uvas. Um seu amigo comentou "os meninos de Angola receberam armas como presente de Natal e os meninos da Europa receberam uvas" e conclui: "Eu queria que todos os meninos do mundo fossem felizes, mas não sei como será isso possível"

Mas o piloto, a tripulação, o avião, são apenas a ponta do iceberg que contribui para a exploração de uma África em que a escravatura apenas acabou na sua forma mais física e talvez mais honesta, porque a exploração económica, assente nas condições sociais dos africanos, ultrapassa tudo o que seria humanamente aceitável, começa nos empresários, passa aos grupos económicos, continua ao nível de países e conclui com chave de ouro nos grandes blocos, neste caso a União Europeia.

Este tipo de exploração leva o desprezo pela condição humana a um ponto que reduz as pessoas a meros animais, dourando de palavras formais uma realidade que não resiste a um olhar mais atento, como o que Hubert Sauper decidiu lançar, neste caso sobre a Tanzânia, mas como diz, o seu filme poderia focar a Serra Leoa e trataria de diamantes, as Honduras e lidaria com bananas ou a Líbia, Nigéria ou Angola e abordaria a questão do petróleo.

O drama vira tragédia, quando se transforma num mecanismo de triturar populações sem fim à vista, em que todos os intervenientes são peças integrantes na engrenagem, desde os adultos que a alimentam para sobreviverem, pescando e tratando o peixe sem as mínimas condições de segurança, até aos miúdos que usam os restos das embalagens de pescado para as converterem em droga e snifarem, passando pelas mulheres bonitas que se dedicaram à prostituição ao serviço das "abastadas" tripulações que passaram a visitar a região.

Género raramente bem sucedido, O PESADELO DE DARWIN, de Hubert Sauper, é um documentário ficcionado que resulta de uma feliz conjugação do dramatismo da situação escolhida por Sauper e do modo como a filmou, eliminando qualquer imagem ou som supérfluo, montando de uma forma linear mas não simplória e escolhendo criteriosamente os planos, de modo a descrever da melhor forma um quadro trágico dos nossos dias e nos merece 4 écrans, filme decididamente a ver.

Falco Fernandes

 

 

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